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37 anos lutando pela Cultura Popular

Entrevista com César Vieira

O Teatro Popular União e Olho Vivo completou 37 anos no dia 27 de Fevereiro de 2003. São quase quatro décadas de muita atividade cultural identificada com os oprimidos, voltada para a transformação social e reconhecida nacional e internacionalmente.

Você vê alguma relação entre arte e direito?
Logo após a formatura, eu optei pela advocacia sindical e, depois, com a vinda da repressão, optei pela defesa dos direitos políticos. Foi minha forma de colaboração com a idéia de mudança social, defendendo os companheiros que se dedicavam à luta sindical, popular, e à luta armada como única forma de resistência. A advocacia nas auditorias militares, defendendo os presos políticos, tem muito a ver com a arte, com o amor pelo próximo. Não vejo muita diferença entre advocacia militante e um teatro, uma cultura militante. Procurei nas duas áreas, modestamente, fazer alguma coisa.

Como você define arte popular?
Entendo-a como uma arte a ser vista por elementos populares, praticadas por elementos que sejam do meio popular ou que pelo menos se identifiquem, falem a linguagem do povo, ou sejam o próprio povo fazendo a arte; que tenha o objetivo da transformação social; que a forma de fazer a arte seja inteligível para o povo e seja colocada a seu alcance, ou seja no local onde o povo mora, a um preço acessível ou gratuito. Os instrumentos de realização dessa cultura, dessa arte, devem estar ao alcance do povo. No caso do teatro, além de ser inteligível e acessível, que o povo não apenas assista a ele, mas que possa participar como sujeito da ação cultural; que possa ser ator, músico, produtor cultural. Não podemos cair na coisa restrita do folclore. O Brasil tem uma arte popular muito diferenciada. Temos, no Rio Grande do Sul ao Nordeste, uma arte maravilhosa, inclusive a arte indígena.

Fale mais sobre sua afirmação de que a arte popular não se restringe ao folclore.
A palavra folclore, atualmente, está muito adstrita, infelizmente, às manifestações dominadas pela mídia, que é dominada pelo poder econômico das multinacionais ou grandes empresas brasileiras. Então vemos numa manifestação cultural nacional, como o carnaval, em que o belo é a participação do povo nas ruas, como acontece em Olinda, Recife e Salvador, que a televisão pegou pontos básicos e colocou na telinha para serem vistos por 100 milhões de pessoas durante três dias. Toda a riqueza das escolas de samba hoje é dirigida para um brilho falso de uma hora de duração, como coisa a ser mostrada para o exterior. Vivemos as conseqüências da mutilação do folclore em benefício exclusivamente do lucro cultural. Mas as manifestações culturais autênticas ainda existem e estão sendo exercitadas, umas mais, outras menos. Seria fundamental que o poder público destinasse grandes verbas às secretarias de cultura para que a arte popular pudesse se desenvolver como autêntica expressão da vida do povo.

Dias Gomes se ressentia das críticas feitas por parte da intelectualidade brasileira, por ele ter passado a escrever novelas para a televisão. Ele considerava positiva sua posição, justificando que uma peça de teatro sua era vista ou lida por algumas centenas, talvez milhares de pessoas. Já uma novela era vista por milhões de pessoas. O que você acha dessa opinião? Como definir a novela?

Dias Gomes tem peças de teatro maravilhosas que vão perdurar por dezenas de anos, vão continuar sendo montadas. A novela tem certas características técnicas que não permitem ao autor condensar o seu pensamento. A novela é a sucessora de uma coisa que existia antes, chamada folhetim (os folhetins eram histórias contadas em pequenos capítulos, entregues nas casas das famílias semanalmente, cada capítulo conduzia a outro, sempre deixando uma forma de suspense). A novela tem esse condimento de não ser uma coisa curta como uma peça de teatro, não ser um filme que é condensado, mas se estender por muito tempo. É muito difícil ter um domínio disso, especialmente nesse monstro que se chama televisão. A televisão é dominada. O Dias Gomes fez algumas novelas importantes, mas hoje acho absolutamente impossível porque o predomínio é do Ibope, é aquele canal determinado, que existe para o lucro, não para a cultura, nem para a educação. O que importa é a novela ter audiência, não importando o seu conteúdo social ou artístico. Nas condições do sistema capitalista, a novela é um grande mal.

Na ótica do neoliberalismo, em que tudo é mercado, o Estado deixou de patrocinar a cultura popular. Criou as leis de incentivo à cultura nos níveis federal e estadual que obriga o artista, o criador, a mendigar apoio das empresas privadas, em troca de descontos no recolhimento do imposto de renda. Como você vê tudo isso?

A Constituição brasileira obriga o Estado a promover a arte popular, a arte indígena. Não se trata de colocar em programas de governo. Consta da Constituição Federal, da maior parte das constituições estaduais e das leis orgânicas dos municípios. Mesmo o Estado neoliberal tem obrigações das quais não pode abrir mão, como sua participação na cultura, na saúde, no transporte, na educação. Ele é obrigado a dirigir verbas para apoio à arte popular, que não fica restrita a grandes centros, como São Paulo e Rio de Janeiro. Mas em relação à cultura os governistas atuais são piores dos que existiam no tempo da ditadura quando, pelo menos, saíam editais convidando os artistas a inscreverem seus projetos. Hoje, essa ótica neoliberal de privatizar tudo, menos os empregos destinados aos amigos, a Lei Rouanet (a federal, que é básica) e as leis estaduais colocam os projetos culturais a reboque de um diretor de departamento de uma multinacional ou grande empresa brasileira. Quer dizer, par obter financiamento, você vai ter que oferecer um projeto que agrade à Coca-Cola, que agrade à Esso, que agrade ao chiclete ou ao refrigerante tal. Como esses diretores de empresas têm sempre em vista algo que lhe dê lucro, eles jamais vão apoiar uma manifestação da cultura popular, alguma obra ou atividade cultural que fale contra o sistema.

Como mudar essa política?
Há uma necessidade imensa de transformação e criação de novas leis. Par aisso, é importante que se envolvam todos os segmentos culturais deste país: sindicatos de artistas, a União Brasileira de Escritores e os departamentos culturais dos sindicatos em geral. Existem sindicatos, alguns deles, que se consideram, e até tomam atitudes progressistas, mas colocam a cultura como coisa de veado, coisa sem interesse. E acabam fazendo a mesma coisa do sistema, que é política de eventos: convidam um artista conhecido, um grande nome, e levam para cantar no seu sindicato, como se isso fosse a solução, quando tem, na própria categoria profissional que representam, artistas, cantores, músicos que poderiam ser prestigiados a um preço muito mais baixo, e fazendo fluir a arte, permitindo àquele trabalhador se exercer artisticamente, desenvolver a sua arte, ligando-a à discussão política.

Qual a importância de Bertolt Brecht para a arte, para a cultura popular, e qual a validade de suas formulações para nossos dias? Fale do Teatro Popular União e Olho Vivo: sua origem, sua história e o que ele representa.
O Teatro Popular União e Olho Vivo nasceu em 1966, na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP) com o objetivo de fazer um teatro estudantil voltado para o público acadêmico e também para o público convencional. Já no início, o grupo começou a rediscutir o seu trabalho. A partir da peça "Corinthians, Meu Amor", que atraiu um grande número de pessoas, o grupo começou a discutir o por quê de fazer teatro apenas para o público convencional, que podia pagar ingresso, e definiu o caminho de fazer teatro em bairros: escolas, igrejas, casas paroquiais, clubes de futebol de várzea, buscando sempre uma forma de expressão popular. No início, era composto por elementos de classe média, mas com o tempo passou a ter a sua maioria de componentes proveniente do meio popular e se despojou da estética convencional do teatro, passando a usar a forma e a linguagem do povo.

Quando o povo fala criticamente, produz coisas muito mais diretas, muito mais bonitas, muito mais gostosas e muito mais simbólicas do que a classe média. Nosso grupo encontrou formas de sobreviver independentemente dos subsídios governamentais. Tem conseguido prêmios nacionais e internacionais, como o da Casa das Américas, de Cuba, e também da Venezuela, Estados Unidos, Polônia. Vários de nossos textos são remontados por outros grupos. O nosso teatro é popular, mas é muito bem recebido pela classe média. Então, venderemos o espetáculo para clubes, colégios e outras entidades da classe média. O que ganhamos, investimos nas apresentações feitas nos bairros populares. É a tática Robin Hood.

Estudamos muito as experiências dos Centros Populares de Cultura, do Opinião, do Arena, do Teatro Oficina. Nossa diferença é que tivemos continuidade e levamos o teatro a um público que nunca tinha visto essa forma de arte: já são quase 35 anos, com 4 mil espetáculos, dos quais 3800 foram feitos nos bairros populares.

E a relação do grupo com as organizações populares e com os sindicatos?
No período da ditadura militar, o grupo apresentou-se nos bairros populares, levados por organizações e lideranças das comunidades, ligadas à Igreja Católica ou a partidos políticos clandestinos, ou mesmo por grupos comunitários, como clubes de futebol de várzea e associações de pais e mestres. Nessas ocasiões, havia a apresentação e depois as discussões, que não se restringiam à arte exibida. Eram discutidos os problemas do bairro, como se organizar. Nós nunca chegamos apontando o caminho: ao contrário, sempre fomos aprender com eles, realizar uma troca de experiências com o meio popular. No processo, o grupo foi perdendo os elementos de classe média e incorporando os elementos populares. Assim, se constituiu uma ligação forte e o grupo era muito requisitado, a ponto de termos um calendário cheio para um ano, um ano e meio. Com os sindicatos, houve alguns trabalhos, como com o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC e com o Sindicato dos Bancários de São Paulo, mas não tão importantes.

Quais as dificuldades enfrentadas pelo grupo em sua caminhada? Recentemente, houve, por exemplo, o conflito da prefeitura de São Paulo, em relação à sede do União e Olho Vivo...
O grupo conseguiu um terreno da prefeitura em 1980, concessão por tempo indeterminado. Era um lixão, um lugar abandonado, um terreno baldio, num bairro popular de São Paulo, o bairro do Bom Retiro. Às suas próprias expensas, com a ajuda dos moradores e trabalhadores da comunidade e dos amigos, o grupo construiu a sua sede. Como é um grupo que não visa o lucro, não tinha obrigação de pagar o IPTU, como de fato não pagou, pois o grupo presta serviços à comunidade. A partir de determinada época, a prefeitura passou a lançar impostos sobre o grupo que, no final do governo Maluf, recebeu uma cobrança de R$300.000,00 de impostos atrasados, devendo pagá-la, sob pena de perder a sede. Tivemos o apoio de várias entidades (Ordem dos Advogados do Brasil, Sindicato dos Jornalistas, entidades de artistas, clubes de futebol de bairros, partidos políticos e várias organizações, inclusive de outros estados). Houve um movimento muito grande de opinião pública , o grupo levantou 50.000 assinaturas. Tomado de surpresa, o prefeito assumiu o compromisso de resolver o problema em dois dias, e realmente o fez. Publicou um decreto isentando do IPTU todas as entidades sem fins lucrativos que tivessem atuação em defesa da Cultura Popular. Isso beneficiou umas 3000 entidades em São Paulo: Escolas de Samba, grupos de teatro, grupos folclóricos, grupos de capoeira. Saímos vitoriosos.

Que orientações você daria, a partir da experiência, para grupos de estudantes e de trabalhadores que às vezes, querem desenvolver uma atividade cultural e se sentem meio perdidos, sem apoio?
Primeiro, juntar pessoas que tenham o mesmo objetivo: fazer arte popular, um teatro popular. Estudar experiências anteriores. Definir qual vai ser o seu público: moradores de periferia, participantes de um clube esportivo, de uma entidade popular. Em seguida, escolher um texto que fale da realidade desse público para quem o grupo vai dirigir o trabalho. O ideal é que o grupo construa seu próprio texto, um trabalho coletivo, mas nessa fase de formação isso é muito difícil, devido à falta de experi6encia de anterioridade. Então o grupo deve escolher um texto de um autor que fale da mesma realidade do povo, utilize a linguagem do povo. Pode ser de um Brecht, de um Guarnieri, de um Plínio Marcos, de um Dias Gomes, ou mesmo um texto mais ameno, mas voltado para a transformação social. Feito isso, ele deve procurar um encenador, um diretor que tenha alguma experiência de teatro e visão de arte popular idêntica à do grupo, para conduzir a montagem.

Essa primeira apresentação vai ter muitos erros, pois o pessoal não tem experiência, não tem malícia de uma marcação, de uma postura cênica, mas vai aprender. Vai sentir que está sendo útil ao público para o qual se apresenta, proporcionando lazer e discussão de seu trabalho. Essa fase dura mais ou menos um ano e, se o grupo continuar, vai amadurecer. Aí já pode escolher um tema, estudar e escrever seu próprio texto, tentando montar com a experiência anterior. É importante procurar companheiros que praticam a arte popular. O União e Olho Vivo, por exemplo, contou uma história de greve com a estrutura do bumba-meu-boi. Assim, o grupo deve procurar uma forma de arte popular existente e contar outra história, por exemplo, o pastoril, usando a música do pastoril, a movimentação cênica do pastoril. O importante é ter condimentos da arte popular praticada pelo povo e, se possível, trazer elementos do povo que pratica essa arte para o seu meio e caminhar em busca de um espetáculo que tenha a estética popular, a poesia popular, a beleza popular. Fazer tudo, em primeiro lugar, muito bonito, muito eficaz e, em segundo, com um tema que fale da transformação social. O grupo tem que ter uma estrutura organizada, aprender a conviver e superar as divergências em função do seu objetivo.