Quando
encontrei Ricardo Dominguez, numa tarde ensolarada de sábado
em Nova York, estava determinado a fazer uma entrevista
curta, de no máximo 15 minutos, para escrever uma
crônica de duas páginas sobre personagens novayorkinos.
Ricardo
parece um personagem de revista em quadrinhos. Veste roupas
escuras - mesmo em tardes de sábado ensolaradas -,
usa um óculos meio quadrado e de aro grosso que tem
um ar antipático de algumas professoras primárias
que eu tive. É 'xicano', filho de mexicanos nascido
nos EUA, mas não tem características particularmente
indígenas.
O
cabelo dele, escuríssimo, é engomado no estilo
anos 50 e sua franja é moldada num discreto espiral
do lado direito da testa. É difícil, pela
aparência, acreditar que ele seja um dos militantes
mais ativos do movimento internacional de apoio aos zapatistas
de Chiapas, no México.
Apesar
dessa look estranho, Ricardo é muito cordial e bem
humorado. Tem uma voz funda que - denunciando sua formação
de ator - ele explora dramaticamente enquanto conversa.
Antes
de começar a gravar, expliquei a ele que eu - e provavelmente
a maioria dos possíveis leitores da entrevista -
sabíamos o que adultos de classe média com
formação universitária no final do
século 20 sabem sobre internet e computadores.
Ele
entendeu a proposta e narrou sua história desde o
princípio, de uma forma quase elementar, permitindo
pacientemente que eu o interrompesse quando tivesse dúvidas.
Isso possibilitou que assuntos tão diferentes como
Movimento Zapatista, Pós-modernidade, desobediência
civil e ciberespaço se entrelaçassem e juntos
se explicassem.
No
começo, eu queria contar uma história curiosa.
Mas duas horas depois, quando a entrevista terminou, percebi
que o conteúdo gravado pode ajudar pessoas que, como
eu, ainda não encontraram um conceito e uma prática
para exteriorizar o desgosto pela miséria e a violência
do mundo hoje.
Dedico
essa entrevista à minha amiga Andrea Paula dos Santos,
militante do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra, que
por alguns motivos óbvios e outros não tão
óbvios, esteve na minha cabeça durante todo
o processo de gravação e edição
deste texto. (JS)
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JS
- Como você passou de ator a militante zapatista e
agora a ídolo hacker?
RD
- Essa é uma longa história, de mais de 15
anos, de quando eu comecei a pensar numa teoria e numa prática
para a 'Desobediência civil eletrônica'. Enquanto
idéia, a 'Desobediência civil' surgiu aqui
nos Estados Unidos no século passado, com Henry David
Thoreau, que escreveu o ensaio 'Sobre a desobediência
civil'. Ativistas como Martin Luther King e Gandhi foram
dois grandes popularizadores dessa proposta.
JS
- E o que Thoreau propõe no ensaio?
RD
- Propõe uma atitude crítica contundente mas
ao mesmo tempo pacífica, muito aplicada inclusive
pelos movimentos estudantis de 1968. Em síntese,
a desobediência civil significa que você se
dispõe, de uma forma não-violenta, a perturbar
a ordem. Por exemplo, durante o Movimento pelos Direitos
Civis dos negros americanos nos anos 50 e 60, desobediência
civil era entrar num restaurante e se sentar. Isso era tudo
que um negro precisava fazer para tocar nos nervos da sociedade...
JS
- E como surgiu a vontade de transpor essa idéia
para o mundo virtual?
Em
87, eu e quatro outras pessoas formamos um grupo chamado
Critical Art Ensemble (CAE). Éramos artistas e profissionais
que tínhamos em comum um profundo desgosto por nossas
profissões. Por causa desse ódio a quem nós
éramos e o que estávamos fazendo, começamos
a debater formas de alterar esse quadro através de
desobediência civil eletrônica. Isso não
seria possível se estivéssemos satisfeitos.
Dentro da nossa sociedade, somos treinados a agir e pensar
de uma certa forma e isso nos impede de inventar coisas
novas. Porque estávamos angustiados, estávamos
também dispostos a fazer concessões que a
sociedade discrimina. Aquele era o momento para artistas
abrirem mão desses hábitos, especialmente
nos anos 80 quando emergiu o pensamento crítico pós-moderno...
Nessa época, começávamos também
a contemplar a idéia de um ciberespaço, de
um universo desmaterializado que dava possibilidades infinitas
de comunicação. O acesso a computadores ainda
era limitadíssimo, mas o gênero ciber-punk
já falava sobre essa nova realidade virtual. Autores
como William Gibson, Bruce Sterling, e vários britânicos
escreviam sobre isso e nós liamos tudo deles. Gibson,
aliás, foi o cara que no romance "Neuromancer"
criou o termo 'ciberespaço' que, para ele, era uma
"mass of alucination agreed upon" ou uma alucinação
coletiva e consensual...
JS
- Qual era o projeto do CAE?
RD
- Para nós, o ciberespaço era uma utopia a
ser conquistada. Sentíamos que a cultura do Ocidente
estava em ruínas e talvez, se ocupássemos
antes esse novo espaço, poderíamos ajudar
a construir uma nova comunidade, não apenas local
mas global. A sociedade hoje acredita e defende que produtos
têm mais direitos que seres humanos. Isso está
errado, e começamos a estudar como aplicar a desobediência
civil dentro deste mundo para interferir no quadro do mundo
real. No século 19 e em boa parte do século
20, o poder existia nas ruas, tudo se resumia a fazer ruas
maiores para transportar mais produtos. O movimento de desobediência
civil, nessa época, pregava exatamente o bloqueamento
dessas ruas. Gandhi levava milhares de indianos para o centro
das cidades para que todos se sentassem e com isso, interrompessem
essa ordem. Queríamos fazer a mesma coisa mas no
ciberespaço.
JS
- E o que no ciberespaço atraía tanto a atenção
de vocês?
RD
- Justamente a absoluta liberdade de expressão desse
novo ambiente. E também a possibilidade de criar
um foro público de debates que pudesse fazer frente
aos veículos de informação tradicionais,
que filtram as idéias de acordo com interesses próprios.
Esse elemento é central para nós porque até
então, para fazer frente ao New York Times, uma pessoa
precisava ter muito dinheiro ou poder político para
montar uma estrutura semelhante à desse jornal, com
centenas de repórteres ao redor do mundo. Sempre
houve pessoas descontentes mas com a internet, essas pessoas
puderam encontrar muitas outras que têm as mesmas
idéias e por isso conseguem falar simbolicamente
com um volume bem mais alto e sem filtros.
JS
- Como o Movimento Zapatista entrou nessa história?
RD
- CDA tinha discutido muito sobre o conceito de desobediência
civil eletrônica mas ainda faltava colocar tudo aquilo
em prática. Foi quando, em 94, surgiu o Movimento
Zapatista em Chiapas. Aparentemente era um grupo guerrilheiro
tradicional, com formação maoísta-leninista
muito parecida com a do Sendero Luminoso peruano e que saiu
das florestas com fuzis nas mãos para impor suas
idéias pela força ou morrer. O grupo, formado
por 28 comunidades de origem maia, declarou autônoma
a região de Chiapas e queria negociar direitos aos
povos indígenas do país. Não existia
muitas diferença entre os zapatistas e outros grupos
guerrilheiros do passado recente ou presente e, provavelmente,
o governo mexicano os teria massacrado cedo ou tarde se,
em 12 dias de luta, eles não tivessem mudado da água
ao vinho. Esse foi o tempo que os zapatistas precisaram
para descobrir os mecanismos da 'fábrica virtual'
e reorganizar toda sua estratégia de luta. Assim
que eles descobriram a internet, o jogo ser inverteu e eles
ganharam um novo poder para combater o exército mexicano.
E isso quem afirma não sou eu mas a Rand Corporation,
um dos principais centros de pesquisa militar dos EUA. Os
zapatistas, em menos de duas semanas, se tornaram os maiores
e mais fortes guerreiros da informação que
já existiu na terra.
JS
- E porque eles e não qualquer outro grupo armado?
RS
- Por dois motivos, principalmente. Porque em 94 já
existia concretamente o ciberespaço. Dentro das universidades
e dos institutos, estudantes e professores já tinham
e-mail para trocar idéias, inclusive usando as chamadas
listas de discussão. Você assinava a lista
sobre o assunto e passava a receber e a mandar mensagens
para todos os outros assinantes ao mesmo tempo. Mas havia
também um componente cultural dos zapatistas. Eles
tinham sonhado com isso antes. Eram capazes de conceber
uma rede intergalática, intercontinental, de luta
e resistência, ou como eles dizem, "as nossas
forças eletrônicas"... Ou seja, em apenas
12 dias eles perceberam que não precisavam mais lutar
a velha guerra moderna, de morrer e matar. Eles perceberam
que existia uma outra maneira mais eficiente que é
a guerra de informação, que quer dizer simplesmente
uma guerra de palavras...
JS
- Como essas comunidades, sem ter nem luz elétrica,
conseguiram chegar até os computadores e de lá
para as redes?
RD
- Chegavam e chegam ainda, primeiro a pé pela floresta,
até encontrar alguém que tenha um cavalo,
de lá até a estrada, depois de carro até
a cidade. E mesmo sem luz elétrica, se tornaram a
mais poderosa comunidade da guerra de informação
do planeta. Em 99, a Wired, a principal revista do mundo
digital nos EUA, publicou uma lista com o nome das 25 pessoas
ou organizações mais influentes on-line. A
primeira era Bill Gates e a segunda, um bando de índios
maia do sul do México. Comparando as posses de um
e de outro, fica claro como os zapatistas entenderam bem
o funcionamento do ciberespaço... Hoje, fala-se muito
de 'adaptabilidade', que as companhias devem se adaptar
rápido ao novo mercado. Essa, para quem não
sabe, é uma contribuição dos zapatistas
à economia digital...
JS
- Qual era o conteúdo dessas mensagens que eles começaram
a passar?
RD
- Bom, são cartas de todo tipo, milhares e milhares
que eles mandam todos os dias. E não são notinhas
mas cartas longas, que formam livros. Muitas são
histórias para crianças. Os assuntos mais
recorrentes são o mar, a lua, a tecnologia maia,
o efeito dos sonhos. Tem tanto livro que eles brincam dizendo
que se os empilhassem, daria para chegar à lua...
JS
- É a primeira vez que eu estou ouvindo que os zapatistas
escrevem livros e ainda mais nesse ritmo alucinante. Por
que isso não chega aos jornais?
RD
- Porque as mensagens não são mandadas para
os jornais. Elas circulam entre comunidades autônomas
ao redor do mundo, na Itália, na Coréia do
Sul, na Austrália, na Áustria. São
os zapatistas virtuais que recebem essa literatura e passam
a diante. Não precisamos do New York Times para traduzir
e publicar nossos textos. Tudo existe dentro da rede. Eles,
os zapatistas de Chiapas, são revolucionários
pós-modernos, os primeiros revolucionários
virtuais. Sem ter conectividade, nem laptops, nem celulares,
eles me ensinaram em 1994 o que era desobediência
civil eletrônica. Eles foram capazes de criar e abastecer
uma rede de informação que contava com infinitas
mensagens de e-mail e centenas de sites.
JS
- E quanto tempo levou entre o surgimento dos zapatistas
e a criação do Eletronic Disturbance Theater
(EDT)?
RD
- Eu entendi a mensagem deles quase instantaneamente. Já
fazia parte do Critical Art Ensemble e assim que soube dos
zapatistas, comecei a participar de protestos nas ruas de
Nova York em favor dessa causa, fazer greve de fome na frente
da Embaixada do México. Um desses atos foi uma performance
virtual chamada de 'Rabinal Achi/Zapatista_Port_Action at
MIT'. Durante 4 meses, em 96, eu fiz 3 horas semanais de
entrevistas com zapatistas ao redor do mundo. O sinal de
voz era retransmitido ao vivo para o site do MIT, o Massachusetts
Institute of Technology, que disponibilizava o material
ao público. Também em 96, um analista financeiro
do Chase Manhattan soltou um memorando interno dizendo que
apesar dos zapatistas não oferecerem nenhum perigo
à economia mexicana ou a Wall Street, o movimento
estava provocando uma depressão no mercado e por
isso ele recomendava a sua erradicação imediata.
É isso mesmo, o Chase estava ordenando: Ataque! Esse
documento vazou e um dia depois deu o ter recebido, o presidente
Zedillo do México autorizou o primeiro ataque massivo
aos rebelados de Chiapas. Mas nós, os zapatistas
virtuais, respondemos imediatamente mandando o memorando
para o New York Times, para toda a imprensa. Fizemos atos
públicos e distribuímos muitas cópias
do documento borrado de tinta vermelha. Resultado: em três
dias o exército mexicano suspendeu a ofensiva e recuou.
Por causa dessas e de outras atividades, muitas pessoas
entraram para as nossas listas de discussão. Foi
dessa rede que nasceu o EDT.
JS
- Por que o nome 'teatro'?
Porque
é no teatro que você cria um drama; a causa
dos zapatistas é um drama social. Eu acredito no
teatro que é invisível e que propõe
uma situação, leva a questão para a
comunidade, e deixa as pessoas da comunidade se tornam os
personagens. Tudo que você faz é oferecer para
eles o palco e a internet é justamente um palco para
o diálogo público. Os nossos atos não
são para agradar. Estamos descontentes e demonstramos
isso. De repente, outros ativistas nos atacam dizendo que
isso que fizemos é péssimo. Os hackers dizem
o mesmo. O New York Times diz o mesmo. O Pentágono
diz o mesmo. Mas porque é péssimo, surge o
diálogo entre as pessoas, a troca de informações
para saber se o que a gente faz é legal ou ilegal.
O resultado, apesar de muitas vezes doloroso, é sempre
positivo.
JS
- Vocês já se conheciam antes?
RD
- Nós não nos conhecíamos e até
hoje, quase cinco anos depois da criação do
EDT, eu ainda não conheço pessoalmente um
dos membros, o Brettt Stalbaum, que mora em San Jose, na
Califórnia. Conheci o Stefan Wray de cara porque
ele estava fazendo o curso de doutoramento na Universidade
de Nova York sobre a desobediência civil eletrônica.
Mas a criação do grupo veio mais tarde, em
decorrência de um ataque pára-militar a uma
aldeia maia em Chiapas. Esses assassinos, treinados e armados
pelo governo mexicano, mataram a sangue frio 45 mulheres
e crianças em 22 de dezembro de 97. Os policiais
que estavam a um quarteirão do local declararam que
não ouviram nada, nenhum tiro de fuzil, nenhum grito
de gente sendo esquartejada. Logo depois do Massacre de
Acteal - Acteal era o nome da vila - recebi um e-mail de
uma net-artista de Boston chamada Carmin Karasic. Carmin
trabalhava no MIT e tinha lido meus artigos e acompanhado
a performance que eu fiz no site do MIT. Ela queria os nomes
dos indígenas assassinados para fazer um monumento
virtual de protesto. Estávamos todos revoltados e
todos da lista trocávamos muitas mensagens discutindo
formas de responder àquele ato imbecil. Recebi também
uma mensagem do Anonymous Digital Coalition, que é
um grupo italiano, propondo que todos nós fôssemos
ao site do presidente mexicano, que era o sr. Ernesto Zedillo,
num mesmo período, e ficássemos refrescando
nossos browsers para sobrecarregar o sistema e tirá-lo
do ar. Nisso, o Brett , que trabalha para o Cadre Laboratory
of New Media (http://switch.sjsu.edu),
escreveu dizendo que ele criaria um aplicativo para fazer
os nossos navegadores ficarem recarregando sem parar a página
do sr. Zedillo. Juntamos essas idéias e colocamos
em prática o protesto em 10 de agosto de 98...
JS
- Acho que não entendi. Como é que funcionava
esse protesto?
RD
- É simples. A Carmin construiu o monumento às
vítimas do Massacre de Acteal, contando quem eram
as pessoas que tinham morrido e porque elas foram mortas
. No servidor em que o site-monumento estava hospedado,
colocamos o aplicativo do Brett. Esse aplicativo contava
o número de pessoas que visitavam o site. Para cada
pessoa que visitasse o monumento, o aplicativo mandava um
sinal eletrônico ao site da presidência mexicana.
É como se essas pessoas estivessem acessando o site
do presidente. O sinal bate na porta do endereço
virtual do sr. Zedillo e pede um documento. Um segundo depois,
bate de novo e pede o mesmo documento. Imagina o que acontece
quando 28 mil pessoas fazem isso ao mesmo tempo durante
4 horas. O sistema cai, e foi o que ocorreu. Veja bem que
este é o exemplo típico de desobediência
civil eletrônica. O ato foi pacífico, não
destruiu banco de dados, e as pessoas que organizaram o
movimento não eram anônimos. Apenas, como fez
Gandhi, nos sentados na porta do site... Mais uma vez os
zapatistas mostraram o poder de sua rede, que é um
poder totalmente descentralizado. Não tem ninguém
dando ordens. O comandante Ramona não fala para a
gente: façam isso, não façam aquilo.
Por isso é pós-moderno, porque não
tem centro nem periferia. É o campo perfeito para
a guerra de informação.
JS
- E o que aconteceu depois desse protesto?
RD
- Durante 4 horas, quem tentasse acessar o site do sr. Zedillo
recebia a seguinte mensagem: "Nesse momento não
podemos abrir esta página. Por favor, volte mais
tarde". Isso naturalmente chamou a atenção
da imprensa e no dia seguinte estávamos de novo no
New York Times. Nessa altura o grupo do Eletronical Disturbance
Theater estava formado. Éramos Carmin, Brettt, Stefan
Wray e eu. Agora que tínhamos descoberto o meio de
pôr em prática a desobediência civil
pela internet, planejamos mais performances ao longo do
ano. Os nossos objetivos eram criar os protocolos para a
desobediência civil eletrônica na prática
e não mais na teoria, informar à sociedade
sobre esse assunto, ajudar outros grupos a realizar protestos
virtuais, e desenvolver o diálogo entre hackers,
'hacktivistas' e net-artistas.
JS
- Além do compromisso de promover apenas atos pacifistas,
quais são os outros elementos da ética do
EDT?
RD
- Começa com a questão da transparência.
Sempre informamos quem somos, onde estamos, onde e porque
vamos agir, quanto tempo vamos ficar lá. O Sr. Pentágono,
se precisar, tem os nossos números de telefone e
e-mail ao alcance da mão.
JS
- E qual a resposta do público aos atos do EDT?
RD
- A pior possível, graças a Deus! Ainda em
98 fizemos mais dois protestos virtuais, trabalhamos duríssimo
para organizar os eventos, e fomos também muito atacados,
por todos os lados, pelo que eu chamo de comunidade 'digitalmente'
correta. Isso porque a coisa mais importante da internet
é a velocidade de acesso e o nosso trabalho consiste
exatamente no oposto, ou seja, em travar a rede. Para os
digitalmente corretos, a velocidade de conexão é
tudo. E a nossa mensagem é: atenção,
todo mundo para o meio da rua! Muitos pensaram que a gente
estava fazendo alguma coisa ilegal. Mas de novo, nós
fazíamos performances pacíficas e sempre de
forma transparente. Mas mesmo os hackers, no princípio,
ficaram contra nós porque para eles, vale tudo, menos
congestionar a rede.
JS
- Vocês fizeram mais dois atos em 98. Como foram esses
atos?
Foram
semelhantes ao primeiro. Cada um deles homenageou um momento
importante da trajetória do Movimento Zapatista.
A última performance aconteceu na cidade de Linz,
na Áustria, no Ars Electronica Festival (http://web.aec.at/infowar/index.html)
que foi criado em 1975 e é o mais antigo do gênero.
O tema de 98 era justamente guerra de informação
e o EDT foi convidado. Decidimos fazer um protesto paralisando
três sites, o do Sr. Zedillo, que era de praxe, o
do Pentágono, pelo envio 25 helicópteros Hueys
para o governo do México supostamente combater o
narcotráfico e que foram direto para Chiapas, e da
Bolsa de Frankfurt, porque lá eram negociadas ações
de empresas que estavam interessadas em comprar minas de
urânio em Chiapas. (Aliás, é essa a
função do NAFTA, permitir que essas empresas
entrem em território indígena.) No dia da
performance, estávamos todos no hotel e às
7:30 da manhã eu recebi um telefonema no meu quarto.
A pessoa perguntou se eu era Ricardo Dominguez, eu disse
que sim, então ele falou em espanhol claro: "Mira,
Ricardo, sabemos quien eres, sabemos que vas hacer. No lo
hagas, porque esto no es un juego".
JS
- Foi um bom-dia, digamos, encorajador...
RD
- E era só o começo. Logo que eu desci do
quarto para o saguão do hotel, um grupo de hackers
que estava no festival me cercou e me deram o mesmo recado
do governo mexicano: desista do ato ou nós vamos
te tirar do ar. Eles também eram contra prejudicar
a velocidade de conexão... Além disso, porque
anunciamos que tiraríamos do ar ao mesmo tempo o
site do Pentágono, da Bolsa de Frankfurt e do presidente
do México, o hotel estava lotado de jornalistas que
queriam cobrir a performance. Nesse clima de tensão
e expectativa, começamos o ato. Duas horas depois,
percebemos que algo estava errado. Os computadores das pessoas
que estavam participando do ato começaram a travar
e, como eu disse, o nosso aplicativo nunca travou o sistema
de ninguém. Para nós, os hackers estavam nos
atacando. Mas como explicar isso para milhares de pessoas
e mais jornalistas. Até os organizadores do festival
estavam nas nossas orelhas reclamando e dizendo que sabiam
que não ia dar certo, que éramos irresponsáveis.
Um desastre! Bom, uma hora e meia depois, o ato já
tinha terminado, recebemos um telefonema da revista Wired.com.
Eles diziam que tinham confirmado que o ataque à
nossa performance tinha saído do Pentágono.
Do Pen-tá-go-no! E de fato, quando examinamos o código
da página deles, achamos o aplicativo que estava
causando a travação em todos os computadores.
Esse foi o primeiro caso registrado que Forças Armadas
dos EUA usaram armas de guerra de informação
contra um servidor civil. O que, por sinal, é contra
a lei.
JS
- E vocês tomaram alguma providência?
Eles
passaram vergonha porque no dia seguinte estávamos
todos na capa do New York Times. Levamos o caso para o Departamento
de Direito Eletrônico de Harvard mas so não
foi a diante.
JS
- Esse foi o último ato do ano?
RD
- Não, foi a última performance. Terminamos
aquele ano celebrando o quinto aniversário do surgimento
do Movimento Zapatista lançando, um minutos depois
da meia-noite, o kit com o aplicativo e o manual para a
execução de distúrbios eletrônicos.
Muita gente estava nos procurando, querendo saber como fazer
protestos virtuais, e para comemorar a data e o ano novo,
mandamos o kit para todos em nossas listas. Vinte minutos
depois, o grupo Queer Nation (Nação gay),
da Califórnia, congestionou o site www.godhatesfags.com
(Deus odeia os viados), do Canadá. Logo depois, o
International Animal Liberation, de defesa dos direitos
dos animais, fez um ato contra uma empresa de medicamentos
da Suécia, que desligou todo seu sistema por medo
do que poderia acontecer. Ativistas anti-armas também
paralisaram o sistema de comerciantes de armas pela internet.
Esse foi o nascimento do 'hacktivismo' ou do ativismo no
ciberespaço.
JS
- Outra momento importante para os hacktivistas foi a vitória
contra a www.Etoys.com,
não foi?
RD
- Sem dúvida! Foi o ponto máximo, eu diria.
Ninguém da comunidade digital esperava um ato de
selvageria tão explícito como aquele.
JS
- Você pode contar o que aconteceu?
RD
- A Etoys.com, gigante da internet e revendedora de brinquedos,
atacou através da corte dos Estados Unidos um pequeno
site de artistas suíços chamado Etoy.com (sem
S). Detalhe: Etoy existia desde 94 e era famoso entre os
net-artistas. Em 99, Etoys usou seu dinheiro e o sistema
judiciário americano para roubar o domínio
'Etoy' dos artistas suíços. A mensagem dos
EUA para a comunidade internacional era que a partir daquele
momento, as leis americanas regulamentavam a internet. Acontece
que a comunidade da internet não concorda com essa
postura, inclusive porque a idéia de internet pressupõe
que ela seja um espaço sem fronteiras. O que a Etoys.com
não contava é que nós tínhamos
uma longa experiência em desobediência civil
eletrônica. Fizemos um protesto de 12 dias congestionando
o site da Etoys bem no fim de ano, quando as pessoas compram
mais brinquedos, e cada dia o preço das ações
deles caia mais. Em janeiro, a situação deles
estava tão preta, com as ações totalmente
desvalorizadas, com a imprensa do nosso lado, que eles capitularam.
Levantaram a bandeira branca! Não só devolveram
o domínio do nome Etoy para os suíços
como pagaram todos os custos do processo e ainda pediram
desculpas publicamente. Este é o conceito de desobediência
civil eletrônica funcionando! Porque a pequena Etoy
não tinha como lutar contra o adversário americano,
mas a rede levantou tanto a voz e a causa dos suíços
que eles ganharam um poder de fogo fantástico! Somos
como um enxame de abelhas atacando um gigante... Inclusive
uma das coisas que as empresas de e-commerce se esquecem
no delírio de consumo delas, é que existe
uma outra rede, uma outra sociedade que não funciona
dessa forma, e que essa sociedade é extremamente
inteligente, e que agora tem poder por causa da internet.
JS
- E qual é o legado que vocês deixam para a
rede?
RD
- Acho que vários. Para começar, uma coisa
que está me entusiasmando muito é a politização
dos hackers. Há duas semanas, o grupo hacker 2600,
que é um dos maiores do mundo, nos convidou para
falar em sua convenção anual, que foi aqui
em Nova York. Dois dos painéis mais importantes do
evento eram: hacktivismo e desobediência civil eletrônica.
Esses caras são duros de convencer. Mas demonstraram
que estão conscientes e que vêem com muita
seriedade o que fazemos. Além disso, existem outros
grupos surgindo pelo mundo espelhados na nossa prática,
como os ElectroHippies na Grã-Brettanha, o Federation
of Random Action na França. Recentemente um novo
grupo foi criado na Austrália chamado S-11. Para
protestar contra uma reunião da OMC (Organização
Mundial do Comércio), marcada para setembro desse
ano num cassino de Melborne, eles 'sequestraram' o domínio
da Nike. Com isso, todas as pessoas que iam a www.nike.com
num dia determinado, entravam num site sobre a condição
dos trabalhadores das fábricas da Nike no Sudeste
Asiático... A prática é a mesma do
EDT: ninguém saiu ferido e o patrimônio do
site não foi violado. É assim que eu analiso
esse ato e eu o considero muito inventivo...
JS
- O EDT também foi convidado para se ir falar no
Pentágono. Como foi a experiência?
RD
- Ao Pentágono e às Agência Nacional
de Segurança (Nacional Security Agency) dos EUA também,
não se esqueça... A experiência foi
divertidíssima! Fizemos uma performance de uma hora
e meia com DJs e apresentando vídeos para contar
a história dos zapatistas sobre a tecnologia maia.
Falamos quem somos, porque fazemos o que fazemos e, em resumo,
o que ouvimos deles, de mais de 400 generais e congressistas
americanos, é que temos um "pacto com o demo"
e que ainda vamos provocar "a invasão virtual
de Pearl Harbor"! Ao que eu respondi da seguinte forma:
"Veja, senhores, se isso fosse verdade, eu não
estaria aqui falando com vocês e sim na cadeia. Foram
os senhores que quebraram as leis e não nós"...
Eles tem as paranóias deles. Mas o curioso é
que por causa disso eu estabeleci um diálogo com
grupos dessas organizações, o que para mim
é fantástico! Quem não quer ter contatos
no Pentágono?
JS
- Além dos zapatistas, quais outros movimentos estão
em contato com o EDT para organizar suas guerras de informação?
RD
- Bom, temos contato com as comunidades do Timor Leste,
com o movimento estudantil da Indonésia (que derrubou
o presidente Suharto do ano passado), com o movimento pró-democracia
na China, com as comunidades tibetanas, com as comunidades
indígenas do Peru e Colômbia que vêm
sendo atacados por multinacionais do petróleo, com
o povo de Okinawa que está mobilizado contra a reunião
do G-8, com os aborígenes australianos que lutam
contra a construção de usinas atômicas
nas terras deles, entre outros.
JS
- Você sabe se o movimento dos Sem-Terra no Brasil
está usando esses recursos?
RD
- Eu acho que ainda não. Pelo menos eles nunca entraram
em contato comigo, enquanto os grupos que eu mencionei fazem
parte da nossa comunidade. A proposta do EDT é oferecer
ferramentas e tentar chegar à comunidade que fala
português para que os Sem-Terra e outros grupos brasileiros
passem a usá-las e assim aumentar ainda mais o volume
da voz deles.
JS
- E onde eles podem conseguir essas ferramentas?
RD
- Eles podem entrar em contato comigo. Meu e-mail é
rdom@thing.net. Estamos tentando colocar essas ferramentas
num site mas os governos não concordam porque consideram
o nosso kit armas de terrorismo. Estamos trabalhando para,
nos próximos meses, colocar tudo na Freenet. É
um novo sistema que está sendo desenvolvido que vai
ser virtual, ou seja, não vai estar hospedado em
nenhum servidor. Uma vez que você carrega um arquivo,
não é possível tirar de circulação.
Dessa forma as pessoas poderão encontrar essas ferramentas
mais facilmente.
JS
- O que você no futuro próximo para os hacktivistas?
RD
- Acho que a idéia está frutificando. Especialmente
agora que a comunidade hacker está encarando esse
diálogo, que na minha opinião vai florescer,
ficar mais forte. A chamada 'democracia html' deve popularizar
mais o hacktivismo, tornando o conceito e as ferramentas
mais próximas do grande público, de modo que
protestos virtuais devem se tornar tão comuns como
mandar um e-mail ou visitar um site. Uma pessoa não
tem mais que ter conhecimentos especiais ou saber da infraestrutura
da rede para participar do diálogo. Esse era o nosso
objetivo e eu acho que está caminhando para o rumo
certo.
URL
da homepage de Ricardo Dominguez: www.thing.net/~rdom
URL
do Eletronic Disturbance Theater: www.thing.net/~rdom/ecd/ecd.html
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