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Passa de 9 da noite. É véspera de dia de Xangô
em Cuba. Entramos por uma rua principal de centro Havana. A meia
quadra se vê a parede vermelha de tijolos do imponente hotel
Sevilla, mais imponente ainda porque, recuperado, contrasta com
a cidade-cortiço.
Mas
eu não vou ao Sevilla. Antes de chegar, desaparecemos para
dentro de um edifício de três andares, o pé
direito antigo muito alto. Pouca luz, som disperso de tv e música
vem das portas semi-fechadas dos apartamentos.
Continuamos
subindo até o pátio no teto onde há uma casa
estreita e espichada. Uma varanda cercada por uma mureta contorna
a construção. Janelas e portas abertas e fechadas.
De uma vejo na tv uma cena da mini-serie "Chiquita Gonzaga",
sucesso no país.
Para
o fundo, na frente do ultimo quarto, pretos e morenos, homens e
mulheres e um menino descalço, vestido mais ou menos de branco.
Identifico o tata, rei-bruxo, antes de ser apresentado a ele. Corpulento,
viril, com um pano branco cobrindo o cabelo feito cirurgião.
É
um ritual, confirma o galo que passa preso pelos pés, penas
negras, alaranjadas e sem cabeça, nas mãos de alguém.
O tata não objeta a minha presença nem me trata com
cerimônia; comanda um assistente que dê de beber para
os chegantes. O rum com água aparece numa garrafa plástica
de litro.
Estamos
sentados do lado de fora. Me mantenho discretamente atento e assim
procuro fazer conversa com os outros por perto. De dentro do quarto
fechado, uma liturgia de canto e recitação, mas que
não é sisuda como a do catolicismo. Gente conversa
do lado de fora, conversa normal, de passa-tempo. Alguém
segura uma cobra viva presa pelo talo da cabeça.
Muito
cheiro de tabaco. Ouço a vocalização de um
bode vinda do quarto. O copo de rum se enche e se esvazia mas não
me faz efeito.
Finalmente
vejo o bode. Levam ele e o homem que está sendo iniciado
para o pátio. Noto os testículos exagerados e tesos
do bode. Outras pessoas rodeiam o animal, não vejo bem, mas
o bruxo me chama e me ensina como arrodear pela cozinha para ter
melhor visão.
O
iniciado, de quatro no chão. Forçam o bode, seguro
pelas orelhas, a tocar testa com testa o iniciado. Seguem as orações
cantadas.
A
frase melódica repetida no canto e na resposta do canto escondem
numa aparente monotonia variações delicadas e sofisticadas
de escalas, de tonalidades e de ritmos. O tata é um maestro:
canta, recita, dá instruções e explica para
os discípulos o que está acontecendo e por que. Apesar
de não entender uma parte do que ele diz, percebo sim uma
impostação, um vocabulário e uma gramática
"quebrada" - o chamado espanhol "criollo" ou
mestiço - de negro escravo.
Põem
o bode sobre um ombro do iniciado, que está de joelhos. o
bruxo corrige: o animal tem que estar deitado com a barriga sobre
os ombros do rapaz, que então entra ajoelhado pelo quarto.
E a porta se fecha. Mais canto e recitação e uma mulher
sai com uma víscera do bode na mão. Outra vez abre
a porta e é o tata me chamando para dentro, mas que devo
me descalçar antes. Dentro, a sala vazia. Embaixo da porta,
um circulo desenhado, dividido em quadrantes, cada um com um "X"
ou um "O".
Uma
mulher segura uma cruz de ferro com a imagem do cristo, na outra
mão uma vela branca. Sangue escorre pingado do baixo ventre
do animal e a mancha vermelha se esparrama no chão. Mais
para o fundo, dois facões cruzados com desenhos geométricos
em giz pela lâmina, e um objeto maior, uma panela de ferro
como base de um pedestal feito de hastes de madeira e cravos de
ferro. Em cima, dois bonecos pretos e enegrecidos pelo que suponho
ser sangue seco.
Viram
o bode de barriga para cima e aparece a ferida aberta, dois talos
vermelhos onde antes estavam os tesos testículos. Nova incisão
e do pescoço então começa a derramar o sangue
e o corpo do bicho sonolento se descontrai. A faca passa para outra
mão, o corte se aprofunda. o sangue tem que escorrer sobre
uma cuia e em cima de onde estão os bonecos. o talho chega
no osso da coluna e nas primeiras estocadas, o rabo do bode se retorce
e pára. Mais um pouco e a cabeça, separada do corpo
com serenos olhos abertos, é deitada sobre o mesmo objeto,
entre os dois bonecos. A carcaça vai para a cozinha.
Mais
ritual a portas fechadas; eu do lado de fora. Antes de sair, o bruxo
me interpela: - tem tabaco? Respondo que não. Ele: - quer?
Aceito. Ele estende a mão e pega dois numa prateleira perto
do teto, e me deixa um. Sentado na mureta, me entretenho fazendo
fumaça, cuspindo e conversando conversas passageiras. Quando
decido ir ao banheiro, passando pela cozinha, o bode já está
limpo. miúdos do lado da carcaça, o pêlo e sua
membrana adiposa e prateada do lado na mesa. Numa cadeira, uma travessa
plástica com o resto.
Dois
homens trabalhavam e batem papo na cozinha. O ambiente é
tranqüilo. Me integro a eles. Falamos de Cuba, do Brasil, de
Lula, de novelas. Sempre me surpreende a educação
formal da gente comum na ilha. Eles concordam com a minha impressão
de que o apoio à revolução é maior entre
os negros.
Um
pouco mais e a cerimônia estava terminada. A primeira. Enquanto
isso, intervalo. Em seguida, outro rapaz, desde que eu cheguei duas
horas antes, tem olhos vendados com um pano vermelho e está
num canto do pátio, ajoelhado e esperando a vez. O tata,
ainda mais à vontade com a gente, sentado na mureta, diz
que viaja a vários países para iniciar discípulos
e que os que ele menos prefere são os cubanos, não
porque sejam menos preparados; é pela indisciplina:
-
Você fala para ele não parar em esquina e no dia seguinte
onde ele está? Na esquina! O iniciado não pode ir
preso e os daqui, vão. Lá fora respeitam mais o rito.
Porque uma pessoa não escolhe ser bruxo, ela aceita. E quando
isso acontece, ela nasce outra vez. Não é você
sozinho, agora você leva uma entidade e tem que se comportar...
E continua:
- Eu, por exemplo. hoje sou bruxo; essa é a minha vida. Mas
antes eu não acreditava em nada disso. Antes, se me perguntassem
em que eu acreditava, eu respondia: "em Fidel, em Marx e em
Lênin". Mas chegou a hora e eu recebi um sinal: passei
3 meses "menstruando", entende? Soltando sangue pelo cu.
Tinha que por um chumaço de algodão para me levantar.
Ia de médico a médico e eles me diziam que eu não
tinha nada. Um me gozou: 'criolo, a situação tá
difícil mas não precisa apelar...' Até que
me hospitalizaram e foi quando uma pessoa da religião se
aproximou para dizer o que estava acontecendo... não é
uma coisa que eu faço por vaidade. Se eu tiver que te ferir,
eu vou de faca, nada de bruxaria, porque eu fui escolhido. Porque
eu fui escolhido, tenho que manter um respeito, uma disciplina.
Ele interrompe o relato e manda chamar um dos rapazes que ajudaram
na cerimônia:
- A diferença entre o santo e o bruxo é que o santo
faz umas coisas e não faz outras. O bruxo existe para fazer
o impossível, possível! Esse rapaz, aqui, até
pensam que é meu filho, mas é filho dela.
Ele
abraça a mulher de lado enquanto interpela o rapaz:
-
Ela estava no hospital. O que ela tinha?
- Teve derrame e parada cardíaca.
- E o que disseram os médicos?
- Que não tinha solução.
- E o que eu disse?
- Que ela sairia no dia seguinte.
- E o que aconteceu?
- Ela saiu...
E
prossegue, ainda se dirigindo ao rapaz:
-
E você, o que tinha?
- Sopro no coração.
- Curou?
- Curou.
Aponta
para o quarto onde estão preparando a cerimônia seguinte
e diz:
-
Aqui tem um que matou e foi condenado a 26 anos. Saiu em dois. E
demorou porque o padrinho que encomendou o trabalho não quis
pagar o animal.
Na
entrada do quartinho, o próximo iniciado está de pé
com os olhos vendados sendo purificado com fumo e com rum, espirrados
no corpo pela boca de outros dois.
Digo
que vou embora e me despeço do bruxo. Ele pergunta se eu
gostei, ao que respondo afirmativamente, mas sem convicção.
Ele repete a pergunta para conferir meu entusiasmo. Eu respondo
com mais volume mas com voz indecisa. Ele sorri para mim e vejo
que ele perdoa o meu mundo confuso, de branco, feito de véus
sobre véus.
Antes
d'eu sair, ele pergunta se não quero abençoar a entidade
dele. Devo tocar o chão com os dedos, beijar essa mão
e então toca-la na entidade, que é a panela de ferro
com os bonecos onde está a cabeça do bode. Faço.
Saímos.
Antes da escada, vejo no escuro, entre a porta e uma cadeira, outro
galo amarrado que espera em silêncio.
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