Relatos cubanos II
O sacrifício

Juliano Spyer


Passa de 9 da noite. É véspera de dia de Xangô em Cuba. Entramos por uma rua principal de centro Havana. A meia quadra se vê a parede vermelha de tijolos do imponente hotel Sevilla, mais imponente ainda porque, recuperado, contrasta com a cidade-cortiço.

Mas eu não vou ao Sevilla. Antes de chegar, desaparecemos para dentro de um edifício de três andares, o pé direito antigo muito alto. Pouca luz, som disperso de tv e música vem das portas semi-fechadas dos apartamentos.

Continuamos subindo até o pátio no teto onde há uma casa estreita e espichada. Uma varanda cercada por uma mureta contorna a construção. Janelas e portas abertas e fechadas. De uma vejo na tv uma cena da mini-serie "Chiquita Gonzaga", sucesso no país.

Para o fundo, na frente do ultimo quarto, pretos e morenos, homens e mulheres e um menino descalço, vestido mais ou menos de branco. Identifico o tata, rei-bruxo, antes de ser apresentado a ele. Corpulento, viril, com um pano branco cobrindo o cabelo feito cirurgião.

É um ritual, confirma o galo que passa preso pelos pés, penas negras, alaranjadas e sem cabeça, nas mãos de alguém. O tata não objeta a minha presença nem me trata com cerimônia; comanda um assistente que dê de beber para os chegantes. O rum com água aparece numa garrafa plástica de litro.

Estamos sentados do lado de fora. Me mantenho discretamente atento e assim procuro fazer conversa com os outros por perto. De dentro do quarto fechado, uma liturgia de canto e recitação, mas que não é sisuda como a do catolicismo. Gente conversa do lado de fora, conversa normal, de passa-tempo. Alguém segura uma cobra viva presa pelo talo da cabeça.

Muito cheiro de tabaco. Ouço a vocalização de um bode vinda do quarto. O copo de rum se enche e se esvazia mas não me faz efeito.

Finalmente vejo o bode. Levam ele e o homem que está sendo iniciado para o pátio. Noto os testículos exagerados e tesos do bode. Outras pessoas rodeiam o animal, não vejo bem, mas o bruxo me chama e me ensina como arrodear pela cozinha para ter melhor visão.

O iniciado, de quatro no chão. Forçam o bode, seguro pelas orelhas, a tocar testa com testa o iniciado. Seguem as orações cantadas.

A frase melódica repetida no canto e na resposta do canto escondem numa aparente monotonia variações delicadas e sofisticadas de escalas, de tonalidades e de ritmos. O tata é um maestro: canta, recita, dá instruções e explica para os discípulos o que está acontecendo e por que. Apesar de não entender uma parte do que ele diz, percebo sim uma impostação, um vocabulário e uma gramática "quebrada" - o chamado espanhol "criollo" ou mestiço - de negro escravo.

Põem o bode sobre um ombro do iniciado, que está de joelhos. o bruxo corrige: o animal tem que estar deitado com a barriga sobre os ombros do rapaz, que então entra ajoelhado pelo quarto. E a porta se fecha. Mais canto e recitação e uma mulher sai com uma víscera do bode na mão. Outra vez abre a porta e é o tata me chamando para dentro, mas que devo me descalçar antes. Dentro, a sala vazia. Embaixo da porta, um circulo desenhado, dividido em quadrantes, cada um com um "X" ou um "O".

Uma mulher segura uma cruz de ferro com a imagem do cristo, na outra mão uma vela branca. Sangue escorre pingado do baixo ventre do animal e a mancha vermelha se esparrama no chão. Mais para o fundo, dois facões cruzados com desenhos geométricos em giz pela lâmina, e um objeto maior, uma panela de ferro como base de um pedestal feito de hastes de madeira e cravos de ferro. Em cima, dois bonecos pretos e enegrecidos pelo que suponho ser sangue seco.

Viram o bode de barriga para cima e aparece a ferida aberta, dois talos vermelhos onde antes estavam os tesos testículos. Nova incisão e do pescoço então começa a derramar o sangue e o corpo do bicho sonolento se descontrai. A faca passa para outra mão, o corte se aprofunda. o sangue tem que escorrer sobre uma cuia e em cima de onde estão os bonecos. o talho chega no osso da coluna e nas primeiras estocadas, o rabo do bode se retorce e pára. Mais um pouco e a cabeça, separada do corpo com serenos olhos abertos, é deitada sobre o mesmo objeto, entre os dois bonecos. A carcaça vai para a cozinha.

Mais ritual a portas fechadas; eu do lado de fora. Antes de sair, o bruxo me interpela: - tem tabaco? Respondo que não. Ele: - quer? Aceito. Ele estende a mão e pega dois numa prateleira perto do teto, e me deixa um. Sentado na mureta, me entretenho fazendo fumaça, cuspindo e conversando conversas passageiras. Quando decido ir ao banheiro, passando pela cozinha, o bode já está limpo. miúdos do lado da carcaça, o pêlo e sua membrana adiposa e prateada do lado na mesa. Numa cadeira, uma travessa plástica com o resto.

Dois homens trabalhavam e batem papo na cozinha. O ambiente é tranqüilo. Me integro a eles. Falamos de Cuba, do Brasil, de Lula, de novelas. Sempre me surpreende a educação formal da gente comum na ilha. Eles concordam com a minha impressão de que o apoio à revolução é maior entre os negros.

Um pouco mais e a cerimônia estava terminada. A primeira. Enquanto isso, intervalo. Em seguida, outro rapaz, desde que eu cheguei duas horas antes, tem olhos vendados com um pano vermelho e está num canto do pátio, ajoelhado e esperando a vez. O tata, ainda mais à vontade com a gente, sentado na mureta, diz que viaja a vários países para iniciar discípulos e que os que ele menos prefere são os cubanos, não porque sejam menos preparados; é pela indisciplina:

- Você fala para ele não parar em esquina e no dia seguinte onde ele está? Na esquina! O iniciado não pode ir preso e os daqui, vão. Lá fora respeitam mais o rito. Porque uma pessoa não escolhe ser bruxo, ela aceita. E quando isso acontece, ela nasce outra vez. Não é você sozinho, agora você leva uma entidade e tem que se comportar... E continua:
- Eu, por exemplo. hoje sou bruxo; essa é a minha vida. Mas antes eu não acreditava em nada disso. Antes, se me perguntassem em que eu acreditava, eu respondia: "em Fidel, em Marx e em Lênin". Mas chegou a hora e eu recebi um sinal: passei 3 meses "menstruando", entende? Soltando sangue pelo cu. Tinha que por um chumaço de algodão para me levantar. Ia de médico a médico e eles me diziam que eu não tinha nada. Um me gozou: 'criolo, a situação tá difícil mas não precisa apelar...' Até que me hospitalizaram e foi quando uma pessoa da religião se aproximou para dizer o que estava acontecendo... não é uma coisa que eu faço por vaidade. Se eu tiver que te ferir, eu vou de faca, nada de bruxaria, porque eu fui escolhido. Porque eu fui escolhido, tenho que manter um respeito, uma disciplina. Ele interrompe o relato e manda chamar um dos rapazes que ajudaram na cerimônia:
- A diferença entre o santo e o bruxo é que o santo faz umas coisas e não faz outras. O bruxo existe para fazer o impossível, possível! Esse rapaz, aqui, até pensam que é meu filho, mas é filho dela.

Ele abraça a mulher de lado enquanto interpela o rapaz:

- Ela estava no hospital. O que ela tinha?
- Teve derrame e parada cardíaca.
- E o que disseram os médicos?
- Que não tinha solução.
- E o que eu disse?
- Que ela sairia no dia seguinte.
- E o que aconteceu?
- Ela saiu...

E prossegue, ainda se dirigindo ao rapaz:

- E você, o que tinha?
- Sopro no coração.
- Curou?
- Curou.

Aponta para o quarto onde estão preparando a cerimônia seguinte e diz:

- Aqui tem um que matou e foi condenado a 26 anos. Saiu em dois. E demorou porque o padrinho que encomendou o trabalho não quis pagar o animal.

Na entrada do quartinho, o próximo iniciado está de pé com os olhos vendados sendo purificado com fumo e com rum, espirrados no corpo pela boca de outros dois.

Digo que vou embora e me despeço do bruxo. Ele pergunta se eu gostei, ao que respondo afirmativamente, mas sem convicção. Ele repete a pergunta para conferir meu entusiasmo. Eu respondo com mais volume mas com voz indecisa. Ele sorri para mim e vejo que ele perdoa o meu mundo confuso, de branco, feito de véus sobre véus.

Antes d'eu sair, ele pergunta se não quero abençoar a entidade dele. Devo tocar o chão com os dedos, beijar essa mão e então toca-la na entidade, que é a panela de ferro com os bonecos onde está a cabeça do bode. Faço.

Saímos. Antes da escada, vejo no escuro, entre a porta e uma cadeira, outro galo amarrado que espera em silêncio.