Relatos Cubanos I
Do outro lado do espelho

Juliano Spyer


A CHEGADA

Cheguei hoje à ilha. Várias horas de avião de San Juan para o continente e de volta para o caribe. O embargo proíbe vôos diretos para Havana.

Já descido no aeroporto José Martí, na fila do oficial de imigração. Movimentação lenta. Gente do mundo inteiro, instalações simples e limpas. Funcionários chamam os nomes de algumas pessoas. Serão presos e interrogados? Memória do mundo dividido.

Alemães na fila: um na minha frente e outro, ao lado deste, na fila vizinha. A fila daqui se move e eles se separam. Um poderia fácil fingir estar na mesma do outro, uma solução malandra; mas eles, sempre imperativos e categóricos, respeitam a ordem estabelecida. Câmbio, ninguém no guichê. Quando chega, o funcionário: - vai comprar o que? - pesos, explico.

Não precisa. Nos hotéis, táxis, restaurantes recebem em dólar ou em euro. Troco 10 dólares por 260 pesos para poder sair do circuito turístico.

Pego o táxi. Um citroen novo. A motorista, uma senhora preta simpática e calma, me explica: os carros particulares podem ser perigosos, melhor os do estado como o dela. Noto muita gente nas calçadas beirando as pistas. Falta transporte. Um caminhão desacelera, encosta e uma pequena multidão avança. Todos vestidos dignamente: gente comum. A taxista me diz que ser motorista de táxi não é pra qualquer pessoa em Cuba. Para ser candidato a uma vaga, o cidadão precisa ter um bacharelado e falar línguas.

Pergunto: - que línguas você fala? Um pouco de inglês, um pouco de francês, e perfeitamente o espanhol! E ela não estava se gabando.

Tem carros de todos os tipos em Cuba. Os mais velhos geralmente são uma espécie de táxi chamado "maquina". Mistura de ônibus com carro: andam sempre reto, ida e volta, pelas avenidas principais. Custa 10 pesos a viagem. Nenhum tem indicação de que é ou não uma "maquina". Para descobrir, fácil: dê sinal levantando o braço. Quem parar, te leva.

Porque os motores são velhos, o ar tem gosto de diesel. Mas a cidade é verde, nos terrenos baldios, nas calçadas, nas praças, no horizonte e especialmente nas sacadas das casas e dos prédios baixos.

Acabei de chegar, mas senti vontade de me mudar para cá. Não tem dinheiro, mas também não tem miséria. Imagina São Paulo sem tantos carros. As pessoas andam nas calçadas.

Um rapaz de bicicleta pega carona com outro de moto: vão conversando. Vizinhos nas calçadas. Notei uma boa vontade para dar instruções que a cidade de concreto soterrou. A pobreza humaniza as pessoas e para quem como eu vem de uma vida de carro e escritório, é revitalizante estar cercado de gente.

Depois conto mais. Para terminar, uma historia que me ocorreu minutos antes de pousar.

MAL ENTENDIMENTO

"O rapaz desembarcou em Cuba e não podendo controlar a emoção, gritou: - Liberdade! Liberdade aqui!

Foi preso no ato. Ninguém acreditou que seu grito era uma saudação, não uma critica.

Os cidadãos que testemunharam a cena, condenaram a atitude contra-revolucionária. Nenhum deles quis ter dor de cabeça por causa do desconhecido. Depois de passar de surpreendido a indignado nos dois dias de detenção, o rapaz saiu, livre, mas calado."


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