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A CHEGADA
Cheguei
hoje à ilha. Várias horas de avião de San Juan
para o continente e de volta para o caribe. O embargo proíbe
vôos diretos para Havana.
Já
descido no aeroporto José Martí, na fila do oficial
de imigração. Movimentação lenta. Gente
do mundo inteiro, instalações simples e limpas. Funcionários
chamam os nomes de algumas pessoas. Serão presos e interrogados?
Memória do mundo dividido.
Alemães
na fila: um na minha frente e outro, ao lado deste, na fila vizinha.
A fila daqui se move e eles se separam. Um poderia fácil
fingir estar na mesma do outro, uma solução malandra;
mas eles, sempre imperativos e categóricos, respeitam a ordem
estabelecida. Câmbio, ninguém no guichê. Quando
chega, o funcionário: - vai comprar o que? - pesos, explico.
Não
precisa. Nos hotéis, táxis, restaurantes recebem em
dólar ou em euro. Troco 10 dólares por 260 pesos para
poder sair do circuito turístico.
Pego
o táxi. Um citroen novo. A motorista, uma senhora preta simpática
e calma, me explica: os carros particulares podem ser perigosos,
melhor os do estado como o dela. Noto muita gente nas calçadas
beirando as pistas. Falta transporte. Um caminhão desacelera,
encosta e uma pequena multidão avança. Todos vestidos
dignamente: gente comum. A taxista me diz que ser motorista de táxi
não é pra qualquer pessoa em Cuba. Para ser candidato
a uma vaga, o cidadão precisa ter um bacharelado e falar
línguas.
Pergunto:
- que línguas você fala? Um pouco de inglês,
um pouco de francês, e perfeitamente o espanhol! E ela não
estava se gabando.
Tem
carros de todos os tipos em Cuba. Os mais velhos geralmente são
uma espécie de táxi chamado "maquina". Mistura
de ônibus com carro: andam sempre reto, ida e volta, pelas
avenidas principais. Custa 10 pesos a viagem. Nenhum tem indicação
de que é ou não uma "maquina". Para descobrir,
fácil: dê sinal levantando o braço. Quem parar,
te leva.
Porque
os motores são velhos, o ar tem gosto de diesel. Mas a cidade
é verde, nos terrenos baldios, nas calçadas, nas praças,
no horizonte e especialmente nas sacadas das casas e dos prédios
baixos.
Acabei
de chegar, mas senti vontade de me mudar para cá. Não
tem dinheiro, mas também não tem miséria. Imagina
São Paulo sem tantos carros. As pessoas andam nas calçadas.
Um
rapaz de bicicleta pega carona com outro de moto: vão conversando.
Vizinhos nas calçadas. Notei uma boa vontade para dar instruções
que a cidade de concreto soterrou. A pobreza humaniza as pessoas
e para quem como eu vem de uma vida de carro e escritório,
é revitalizante estar cercado de gente.
Depois
conto mais. Para terminar, uma historia que me ocorreu minutos antes
de pousar.
MAL
ENTENDIMENTO
"O
rapaz desembarcou em Cuba e não podendo controlar a emoção,
gritou: - Liberdade! Liberdade aqui!
Foi
preso no ato. Ninguém acreditou que seu grito era uma saudação,
não uma critica.
Os
cidadãos que testemunharam a cena, condenaram a atitude contra-revolucionária.
Nenhum deles quis ter dor de cabeça por causa do desconhecido.
Depois de passar de surpreendido a indignado nos dois dias de detenção,
o rapaz saiu, livre, mas calado."
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