Por uma criatividade politizada
Juliano Spyer
Onde eu tento redefinir o termo 'arte política' e defendo a necessidade do engajamento
da obra de arte a seu contexto social. Ou sobre os 'podes' e os 'deves' do artista.


Arte política.
Os artistas ficam de orelhas em pé quando ouvem falar em politização da arte. 'Arte politizada' significa mais diretamente 'arte engajada' o que quer dizer uma arte ancorada em um projeto, em uma ideologia. 'Arte engajada' lembra o que os artistas soviéticos, chineses, cubanos faziam e que era na verdade uma forma sofisticada de propaganda do estado.

E por conhecer a experiência traumatizante da convivência entre artistas e estados autoritários de esquerda - ditos socialistas - é que eu entendo por que o artista hoje prefere a alienação ao engajamento. Tudo que o artista não deve querer é ser forçado a defender aquilo que não acredita e - pior ainda - negar o que acredita.

O artista precisa ter a liberdade de expressar com integridade aquilo que quer - e nesse sentido ser um dos principais termômetros da democracia. Quando o direito à expressão artística - qualquer que seja ela - estiver sendo questionada pelo estado, é porque a essência deste estado é antidemocrática, aristocrática, elitista, e/ou segregacionista. Contanto que a expressão artista seja não-violenta, a arte não apenas pode como deve ser polêmica; e mais, a arte - não necessariamente mas é bom que seja - pode ser também incômoda, porque o incômodo é mais efetivo para provocar movimento.

A arte e o artista devem ser livres e a sociedade deve sempre testar em si a condição de aceitar o diferente experimentando-se e descobrindo-se através da arte. Eu quero, contudo, defender que nem toda a 'arte politizada' é negativa. E não é por ela ter sido uma vez domesticada pelo estado autoritário - de esquerda e também de direita - que o artista tem que abster-se de viver integralmente seu compromisso com a sociedade. Quando eu falo de juntar arte e política, isso não significa congelar a criatividade em um discurso moral unilateral; pelo contrário, significa subverter o discurso moral através da criatividade artística.

A arte deve - considero que seja mais obrigação que dever - estar consciente de onde está a fronteira moral da sociedade que cega o cidadão com direito à cidadania o que permite a sustentação da opressão a outros seres humanos. O que a sociedade precisa ver é justamente aquilo que ela tenta esconder. É obrigação do artista estar existencialmente onde haja gente com capacidade de viver plenamente a sua cidadania e que não faz isso por ter nascido pobre. Para isso, o artista não precisa ser mártir, exilar-se, tornar-se um monge ermitão como o Zaratrusta; por outro lado, também não quer ter como modelo, como objeto de inspiração, a si mesmo e refletir seu mundo maravilhoso e complexo num exercício de auto-contemplação narcisista - não que isso não possa ser belo mas que é central o compromisso do ser humano ser humano com os outros seres humanos.

O artista não pode e não deve alienar sua expressão - uma expressão tão fundamental porque não depende do filtro racional - das causas sociais. Quer dizer, a arte é a ponte de contato mais sublime e direta da sociedade; é ela que faz as classes, as culturas, as ideologias, as questões, as morais diferentes se encontrarem, se espelharem e dialogarem.

É através da arte que o humano consegue expandir a sua capacidade de interpretação, de comunicação, de tolerância, de protesto; é como nós, seres sonhantes, participamos ativamente da grande dança, da cerimônia - não a religiosa - arcaica e arquetípica que estão na raiz do humano. Fazer arte é mais que explicar o carnaval; mais que dissecar a dança é entrar na dança e assumir a frente da folia e trocar todas as máscaras e virar anjo, cinderela, vagabundo, policial, prostituta, louco, galã de novela, favelado.

E sobretudo, é importante que o artista faça isso - e não o soldado - porque artisticamente é possível atingir este objetivo sem matar, sem violentar, sem alienar ou afastar o outro que é diferente. Já dizia Bertold Brecht - um dos principais defensores da arte engajada, em uma de suas citações mais repetidas - que somos todos políticos, mesmo quando achamos que não somos. Mas eu não concordo com ele. Ignorar a política pode ser uma forma de criticá-la. Às vezes o silêncio pode ser mais efetivo que um golpe ou um grito. Mas para isso, o silêncio precisa ser consciente, precisa responder a uma proposição da sociedade. Quando ignorar a sociedade é um ato de covardia, mais por medo de romper sua integridade interior que pelo de apanhar, a manifestação artística perde a vitalidade. O artista nessas condições opta por cercar-se de outros artistas com as mesmas condições em guetos para poder existir em um mundo idealizado onde todos se vestem diferentes mas discutem os mesmos temas.

A maioria destes até têm honestidade intelectual mas não conseguem aceitar o compromisso de responsabilidade - não com o estado mas - com os outros seres humanos oprimidos pelo estado. Não se trata de ignorar o estado mas de fazer da arte a nova arma, de entregar-se ao que é doloroso no mundo, ao que não se quer falar, ao óbvio ululante; se trata de tirar a arte do museu, de tirar a arte da parede e levá-la para o espaço público, de desenjaular a arte, de deixar que ela se alimente dos cadáveres morais da sociedade e torne o diálogo social mais claro e efetivo. A arte politizada deve forçar-se para fora dos segundos cadernos e para dentro das capas de jornais.

A arte a que me refiro não precisa ser entretenimento para divertir como não precisa ter ideologia para questionar. O que ela precisa fazer é tocar os outros, a maior quantidade possível de outros, seja pelo riso ou pelo choro, sem afetamento e consciente de sua importância - não digo história e sim - para a sobrevivência do ser humano em boas condições no nosso planeta azul.

Eu acredito que o artista ocupa a função de revolucionário dentro da sociedade; é ele que planta explosivos nos coágulos morais que justificam a existência de classes dominantes. É ele que se submete, que dá o exemplo arriscando-se, tocando o nó, expondo-se como um filme virgem que se deixa impressionar pelo que existe de mais vital nas agrupações humanas que é a força que brota de quem luta para sobreviver.

Para usar outra metáfora, o artista deve deixar-se contaminar pela podridão social e na medida do possível, agüentar o processo infeccioso para desenvolver anticorpos naturais, únicos e originais para combater a doença.

E finalmente, sem ser metafórico, considero que o artista deva ter curiosidade de conhecer o esgoto para onde vai a merda depois de dada a descarga. É essa a experiência que está acima do 'branco' criativo, do silêncio do artista. A carne da sociedade é tão vibrante que não há regime criativo quando se está dentro dela; há temas para todos; quanto mais fundo o artista achar que pode ir, melhor para todos. É importante, no entanto, lembrar que o trabalho artístico não é uma competição e que quem for mais longe não vai ganhar uma medalha.

Não se trata de ser melhor que os outros mas de ser o melhor de si, buscar mais radicalmente a si. Todo mundo tem limites que podem ser trabalhados conscientemente para expandir-se e alcançar novos limites. O mais importante é manter a honestidade intelectual e a compaixão, uma para evitar que o artista vá mais longe que pode ir e a outra para estimulá-lo a continuar explorando as mil faces da vida.


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