Arte política. Os artistas
ficam de orelhas em pé quando ouvem falar em politização
da arte. 'Arte politizada' significa mais diretamente 'arte engajada'
o que quer dizer uma arte ancorada em um projeto, em uma ideologia.
'Arte engajada' lembra o que os artistas soviéticos, chineses,
cubanos faziam e que era na verdade uma forma sofisticada de propaganda
do estado.
E
por conhecer a experiência traumatizante da convivência
entre artistas e estados autoritários de esquerda - ditos
socialistas - é que eu entendo por que o artista hoje prefere
a alienação ao engajamento. Tudo que o artista não
deve querer é ser forçado a defender aquilo que
não acredita e - pior ainda - negar o que acredita.
O
artista precisa ter a liberdade de expressar com integridade aquilo
que quer - e nesse sentido ser um dos principais termômetros
da democracia. Quando o direito à expressão artística
- qualquer que seja ela - estiver sendo questionada pelo estado,
é porque a essência deste estado é antidemocrática,
aristocrática, elitista, e/ou segregacionista. Contanto
que a expressão artista seja não-violenta, a arte
não apenas pode como deve ser polêmica; e mais, a
arte - não necessariamente mas é bom que seja -
pode ser também incômoda, porque o incômodo
é mais efetivo para provocar movimento.
A
arte e o artista devem ser livres e a sociedade deve sempre testar
em si a condição de aceitar o diferente experimentando-se
e descobrindo-se através da arte. Eu quero, contudo, defender
que nem toda a 'arte politizada' é negativa. E não
é por ela ter sido uma vez domesticada pelo estado autoritário
- de esquerda e também de direita - que o artista tem que
abster-se de viver integralmente seu compromisso com a sociedade.
Quando eu falo de juntar arte e política, isso não
significa congelar a criatividade em um discurso moral unilateral;
pelo contrário, significa subverter o discurso moral através
da criatividade artística.
A
arte deve - considero que seja mais obrigação que
dever - estar consciente de onde está a fronteira moral
da sociedade que cega o cidadão com direito à cidadania
o que permite a sustentação da opressão a
outros seres humanos. O que a sociedade precisa ver é justamente
aquilo que ela tenta esconder. É obrigação
do artista estar existencialmente onde haja gente com capacidade
de viver plenamente a sua cidadania e que não faz isso
por ter nascido pobre. Para isso, o artista não precisa
ser mártir, exilar-se, tornar-se um monge ermitão
como o Zaratrusta; por outro lado, também não quer
ter como modelo, como objeto de inspiração, a si
mesmo e refletir seu mundo maravilhoso e complexo num exercício
de auto-contemplação narcisista - não que
isso não possa ser belo mas que é central o compromisso
do ser humano ser humano com os outros seres humanos.
O
artista não pode e não deve alienar sua expressão
- uma expressão tão fundamental porque não
depende do filtro racional - das causas sociais. Quer dizer, a
arte é a ponte de contato mais sublime e direta da sociedade;
é ela que faz as classes, as culturas, as ideologias, as
questões, as morais diferentes se encontrarem, se espelharem
e dialogarem.
É
através da arte que o humano consegue expandir a sua capacidade
de interpretação, de comunicação,
de tolerância, de protesto; é como nós, seres
sonhantes, participamos ativamente da grande dança, da
cerimônia - não a religiosa - arcaica e arquetípica
que estão na raiz do humano. Fazer arte é mais que
explicar o carnaval; mais que dissecar a dança é
entrar na dança e assumir a frente da folia e trocar todas
as máscaras e virar anjo, cinderela, vagabundo, policial,
prostituta, louco, galã de novela, favelado.
E
sobretudo, é importante que o artista faça isso
- e não o soldado - porque artisticamente é possível
atingir este objetivo sem matar, sem violentar, sem alienar ou
afastar o outro que é diferente. Já dizia Bertold
Brecht - um dos principais defensores da arte engajada, em uma
de suas citações mais repetidas - que somos todos
políticos, mesmo quando achamos que não somos. Mas
eu não concordo com ele. Ignorar a política pode
ser uma forma de criticá-la. Às vezes o silêncio
pode ser mais efetivo que um golpe ou um grito. Mas para isso,
o silêncio precisa ser consciente, precisa responder a uma
proposição da sociedade. Quando ignorar a sociedade
é um ato de covardia, mais por medo de romper sua integridade
interior que pelo de apanhar, a manifestação artística
perde a vitalidade. O artista nessas condições opta
por cercar-se de outros artistas com as mesmas condições
em guetos para poder existir em um mundo idealizado onde todos
se vestem diferentes mas discutem os mesmos temas.
A
maioria destes até têm honestidade intelectual mas
não conseguem aceitar o compromisso de responsabilidade
- não com o estado mas - com os outros seres humanos oprimidos
pelo estado. Não se trata de ignorar o estado mas de fazer
da arte a nova arma, de entregar-se ao que é doloroso no
mundo, ao que não se quer falar, ao óbvio ululante;
se trata de tirar a arte do museu, de tirar a arte da parede e
levá-la para o espaço público, de desenjaular
a arte, de deixar que ela se alimente dos cadáveres morais
da sociedade e torne o diálogo social mais claro e efetivo.
A arte politizada deve forçar-se para fora dos segundos
cadernos e para dentro das capas de jornais.
A
arte a que me refiro não precisa ser entretenimento para
divertir como não precisa ter ideologia para questionar.
O que ela precisa fazer é tocar os outros, a maior quantidade
possível de outros, seja pelo riso ou pelo choro, sem afetamento
e consciente de sua importância - não digo história
e sim - para a sobrevivência do ser humano em boas condições
no nosso planeta azul.
Eu
acredito que o artista ocupa a função de revolucionário
dentro da sociedade; é ele que planta explosivos nos coágulos
morais que justificam a existência de classes dominantes.
É ele que se submete, que dá o exemplo arriscando-se,
tocando o nó, expondo-se como um filme virgem que se deixa
impressionar pelo que existe de mais vital nas agrupações
humanas que é a força que brota de quem luta para
sobreviver.
Para
usar outra metáfora, o artista deve deixar-se contaminar
pela podridão social e na medida do possível, agüentar
o processo infeccioso para desenvolver anticorpos naturais, únicos
e originais para combater a doença.
E
finalmente, sem ser metafórico, considero que o artista
deva ter curiosidade de conhecer o esgoto para onde vai a merda
depois de dada a descarga. É essa a experiência que
está acima do 'branco' criativo, do silêncio do artista.
A carne da sociedade é tão vibrante que não
há regime criativo quando se está dentro dela; há
temas para todos; quanto mais fundo o artista achar que pode ir,
melhor para todos. É importante, no entanto, lembrar que
o trabalho artístico não é uma competição
e que quem for mais longe não vai ganhar uma medalha.
Não
se trata de ser melhor que os outros mas de ser o melhor de si,
buscar mais radicalmente a si. Todo mundo tem limites que podem
ser trabalhados conscientemente para expandir-se e alcançar
novos limites. O mais importante é manter a honestidade
intelectual e a compaixão, uma para evitar que o artista
vá mais longe que pode ir e a outra para estimulá-lo
a continuar explorando as mil faces da vida.
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