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Fazia tempo que eu não sonhava ou, melhor dito, que eu não
lembrava dos meus sonhos. tenho acordado com ressacas de pensamento,
fragmentos de idéias cinzas. mas não foi o caso esta
manha. Tudo começou ontem.eu sai com um amigo para andar
pela cidade.
Por preguiça ou por falta de estimulo, fui
com a mesma roupa do dia anterior. Comemos no fim da tarde e começou
a chover. eu tinha a opção de seguir para a balada
- exposição de arte, drinks, fumaça - mas me
sentia vazio e cansado e voltei para a casa onde estou hospedado.
É a casa de velhos amigos, um casal: ele,
suíço, ela, peruana. Um apartamento pequeno, familiar,
que não tem conversas inteligentes nem arte nem sedução.
Claudia, a dona da casa, está grávida de 3 meses.
nem a guerra invade esse apartamento tranquilo.
Cheguei em casa cedo e 10 da noite apaguei o abajur. E antes de
acordar esta manha, sonhei um sonho que acabava na historia que
vou contar.
Era um lugar de ninguém, como uma estrada
afastada de um pais latino-americano. Sol brilhante, tufos de capim
selvagem pelas bordas das casas, carros esporádicos passando,
um pneu de trator esquecido no chão. Uma pessoa que eu conheço
(mas não me lembro agora) entra num ônibus velho para
dirigir para não sei onde e eu tenho que segui-lo dirigindo
outro ônibus velho.
Pegamos a estrada à direita e entramos a esquerda
subindo pela costa de um morro.
O ônibus da frente se afasta e se perde de mim. Eu nunca tinha
dirigido um ônibus. entrei a esquerda e sinto que me perdi.
Estou nervoso com estar dirigindo aquela geringonça
e por saber que a cada instante o outro ônibus se afastava
mais. Manobro o ônibus e vou pelo outro caminho possível.
Nem sinal do outro ônibus. Estaciono em um posto de gasolina
para decidir o que fazer. Mas não fico remoendo a situação.
Escolho tentar lembrar do caminho de volta.
Volto ao entroncamento onde me perdi e viro a esquerda
ladeira a baixo. Me alivia estar reconhecendo o caminho e paro num
boteco de beira de estrada. Percebo a cor amarelo-ouro que esquenta
o ambiente e me acalma.
Estou só, dentro do boteco. uma linguiça
frita pendurada no teto por um barbante está na altura dos
meus olhos. tem cara de velha, de gordurosa e de irresistivelmente
saborosa. comi sem pensar. Estava gostoso. estou no caminho outra
vez e começo a cantar - ou terá sido o radio? - uma
canção de Roberto Carlos:
Você foi, dos amores que eu tive,
o mais complicado e o mais simples também.
Das lembranças que eu trago da vida,
você é a saudade que eu gosto de ter.
Só assim, sinto você mais perto de mim outra vez.
No sonho eu sabia a letra completa. Entro no ônibus
e já não era ônibus e sim uma bicicleta dessas
bem velhas, velhas e antigas, com a roda maior na frente. Eu estava
chorando e cantando. Eu voltava para casa.
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