O último sonho
Juliano Spyer


Fazia tempo que eu não sonhava ou, melhor dito, que eu não lembrava dos meus sonhos. tenho acordado com ressacas de pensamento, fragmentos de idéias cinzas. mas não foi o caso esta manha. Tudo começou ontem.eu sai com um amigo para andar pela cidade.

Por preguiça ou por falta de estimulo, fui com a mesma roupa do dia anterior. Comemos no fim da tarde e começou a chover. eu tinha a opção de seguir para a balada - exposição de arte, drinks, fumaça - mas me sentia vazio e cansado e voltei para a casa onde estou hospedado.

É a casa de velhos amigos, um casal: ele, suíço, ela, peruana. Um apartamento pequeno, familiar, que não tem conversas inteligentes nem arte nem sedução. Claudia, a dona da casa, está grávida de 3 meses. nem a guerra invade esse apartamento tranquilo.
Cheguei em casa cedo e 10 da noite apaguei o abajur. E antes de acordar esta manha, sonhei um sonho que acabava na historia que vou contar.

Era um lugar de ninguém, como uma estrada afastada de um pais latino-americano. Sol brilhante, tufos de capim selvagem pelas bordas das casas, carros esporádicos passando, um pneu de trator esquecido no chão. Uma pessoa que eu conheço (mas não me lembro agora) entra num ônibus velho para dirigir para não sei onde e eu tenho que segui-lo dirigindo outro ônibus velho.

Pegamos a estrada à direita e entramos a esquerda subindo pela costa de um morro.
O ônibus da frente se afasta e se perde de mim. Eu nunca tinha dirigido um ônibus. entrei a esquerda e sinto que me perdi.

Estou nervoso com estar dirigindo aquela geringonça e por saber que a cada instante o outro ônibus se afastava mais. Manobro o ônibus e vou pelo outro caminho possível. Nem sinal do outro ônibus. Estaciono em um posto de gasolina para decidir o que fazer. Mas não fico remoendo a situação. Escolho tentar lembrar do caminho de volta.

Volto ao entroncamento onde me perdi e viro a esquerda ladeira a baixo. Me alivia estar reconhecendo o caminho e paro num boteco de beira de estrada. Percebo a cor amarelo-ouro que esquenta o ambiente e me acalma.

Estou só, dentro do boteco. uma linguiça frita pendurada no teto por um barbante está na altura dos meus olhos. tem cara de velha, de gordurosa e de irresistivelmente saborosa. comi sem pensar. Estava gostoso. estou no caminho outra vez e começo a cantar - ou terá sido o radio? - uma canção de Roberto Carlos:

Você foi, dos amores que eu tive,
o mais complicado e o mais simples também.
Das lembranças que eu trago da vida,
você é a saudade que eu gosto de ter.
Só assim, sinto você mais perto de mim outra vez.

No sonho eu sabia a letra completa. Entro no ônibus e já não era ônibus e sim uma bicicleta dessas bem velhas, velhas e antigas, com a roda maior na frente. Eu estava chorando e cantando. Eu voltava para casa.


voltar