Nunca se sabe quem vai passar pela rua
Juliano Spyer

A aventura eletro-funk de dois peruanos que não tocam música folclórica nas ruas de Nova York.


Eles são dois rapazes de vinte e poucos anos que tocam na esquina da Astor Place com a Lafayette, na região da Union Square em Downtown Manhattan. Não em um bar, na rua mesmo.

Vestem roupa de skatista. Bermuda longa ou calça escura, surradíssima, e camiseta. Tocam flauta transversal e baixo elétrico num estilo que eles classificaram de "Eletro-funk com Drumbeat".

Vieram do Peru há um ano e vivem de música, exclusivamente. "O nosso dinheiro vem da rua, do coração das pessoas", diz Pepe, o mais eloquente da dupla.

Quando eu me aproximei e mostrei o gravador, Pepe fez uma careta de surpresa. Talvez tenha achado que eu era um produtor ou um músico trazendo um contrato.

Ele é autodidata e, diz, aprendeu a tocar flauta porque é cabeça dura. Fala usando metáforas como quem inventa versos livres ao acaso, e em seu jeito tem um pouco de índio asteca, Jim Morrison e Mozart.

Pepe conta que uma manhã acordou com o som da flauta na cabeça. Desde esse dia - ele tinha 19 anos -, não largou mais o instrumento.

"Sempre acreditei nessa cor de baixo e flauta juntos. Na adolescência eu já escutava funk, jazz, e chorava da mesma forma ouvindo Rage (in the Machine) e Miles Davis. Mas faltava a flauta para eu soltar minha energia criativa".

Ele e o parceiro Alejandro concordam que desde que começaram a tocar juntos, há dois anos e meio, a música deles é a mesma em essência.

Com o tempo, desenvolveu-se uma sintonia fina entre os dois. Baixo e flauta caminham nota a nota juntos. O grosso das composições é mais rápido e agressivo, claramente funkiado. A sobreposição dos dois instrumentos cria um terceiro som, difícil de classificar. É o som deles.

Pepe diz que faz música porque este é o legado dele para a Terra. Descobrir qual é esse legado, para ele, não é difícil. Basta seguir o exemplo dos grandes, como Mozart e Coltrane, e se entregar sem reservas pela música e para a música.

Incapaz de se explicar mais com palavras, Pepe pergunta se eu me lembrava dos temas que eles estavam tocando há minutos. Respondo que sim. "Era música em estado puro, sem raciocínio", diz empolgado. "A gente não pensa para tocar. A música acontece."

"Porque a gente nunca sabe quando será nossa viagem para fora do planeta, não há tempo a perder", acrescenta Pepe em tom místico, e olha ao redor procurando um pedaço de madeira. Encontra um, escorando um ferro de construção contra o chão de cimento. Bate duas vezes para isolar.

Pepe e Alejandro vieram com o sonho de estudar e tocar. Por enquanto, não têm dinheiro para pagar cursos. Sentem falta de suas família mas acham que não voltarão ao Peru tão cedo.

"A saudade é muita, da minha mãe, da minha irmã, mas se eu quiser dar para elas alguma coisa no futuro, essa coisa eu vou encontrar aqui", afirma Pepe, em tom desafiante de quem aceita viver o próprio destino.

Se não fosse pela família, ele diz que não se importaria em passar a vida tocando naquela esquina. "Tocar é o máximo, é o melhor. E a rua é meu palco e meu único estúdio de ensaio", explica.

O barulho é intenso nesta noite de sábado. Nova York não perdoa os ouvidos da gente.

Eles não têm dinheiro. Pepe diz que o apoio incondicional de sua mãe ajuda na hora da dificuldade.

Mas epifanias acontecem e eles estão com os olhos abertos para encontrá-las. Falam vaidosos do efeito da música deles nas crianças, que param para dançar e depois chegam perto para agradecer. "Elas ficam entregues, sintonizadas, e se sentem bem".

Para Pepe, interpretar a música dos outros é perda de tempo. Cada um tem que realizar a sua. Ele conta que tem muitos insights enquanto toca. Uma frase musical chama outra, nova, que é semente de uma nova composição.

Eles nem pensam em pegar trabalho provisório de garçom para ajudar a pagar as contas. Têm que tocar todos os dias e onde seja porque, afinal, nunca se sabe quem vai passar pela rua.

O público favorito deles são os skatistas. "Porque gostam de hip hop, de funk, e porque sempre estão a fins de se divertir e de captar nossas viagens".

Entre as influências brasileiras, Alejandro cita sem pensar Sepultura.

Depois de refletir um pouco, o rosto de Pepe se ilumina: "tem aquele albino, barbudo e baixinho, o Hermeto (Pascoal), que é um louco sensacional! Parece um Papai Noel!... Toca flauta e também tudo mais que derem para ele. E pela lenda que me falaram, ele foi criado na floresta".


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