Instantâneos de uma viagem à Itália

Juliano Spyer


Bla bla bar...
é um boteco familiar na velha Roma. Encontrei por acaso. fica quase escondido no andar térreo de um desses prédios baixos renascentistas. O dono é vivo entusiasta do comunismo e decorou, melhor dito, abarrotou o pouco espaço interno com desenhos, imagens, citações sobre o comunismo, além de fotos de amigos e de jogadores de futebol - o Roma havia sido campeão semanas antes e era a liga entre as gentes gerais, sem preconceito de classe, credo ou afiliação partidária; lembra até um outro lugar que a gente conhece.

Não é uma decoração para atrair turistas; mesmo porque lá não tem nada sofisticado a venda; alias, fecha de segunda a sábado às 7 da noite e aos domingos nem abre. o dono é franzino, veste roupas simples, não fala muito nem fala pouco. a primeira vez que eu cheguei, ele estava espichado num sofazinho no fundo tirando um sono. ele depois me disse que o Bla bla bar se chama assim porque o tema da conversa dos frequentadores termina sempre em futebol e política e que um e outro fatalmente viram bla bla blá.

Ser comerciante e comunista não é contraditório; nem colocar lado a lado o atacante do roma Batistuta (o batigol) e Che Guevara na mesma parede. Tudo é pretexto para um continuo blablablar, que talvez não leve a nada, não deve levar a nada, nem precisa, ninguém quer, porque o bom mesmo é assim, não tem preço nem ideologia. E eu pensei: como seria o comunismo se Marx fosse italiano...

Entre caixas de balas com plásticos coloridos e sanduíches caseiros, entre fotos de Stalin e comentários irônicos sobre psicanálise, o dono dá atenção a fregueses que ele conhece pelo nome e que o conhecem pelo nome. entre uma frase dele e outra minha, um trago de cerveja e vários silêncios que se preenchiam com a transmissão de uma estação de musica alternativa que comentou os incidentes entre manifestantes e a policia em Gênova durante a reunião do G8, depois tocou musica clássica, uma melodia suave e triste de cello, melancolizada ainda mais pelo som preto e branco da emissora AM.

Bicas na Roma velha
Não é que eu queira ser romântico mas as bicas de água de Roma são mais que objetos para matar a cede do cidadão e dos animais que vivem na cidade. primeiro porque a água é cristalina e na para de jorrar e a perder-se pelo bueiro escuro de lodo e arredondado no chão. Outra curiosidade é que essas bicas não estão distribuídas racionalmente. você caminha pelas ruas estreitas, calçadas de pedra da velha Roma e sem querer encontra uma. não tem placa indicando nem está estrategicamente posicionada a cada tantos metros de um hospital ou telefone publico. você chega a elas porque sabe onde elas estão ou por acaso, o que muito mais lírico, como uma carta que chega de surpresa.

As bicas variam um pouco de forma mas sempre se parecem a hidrantes. São de ferro e na parte de cima têm um tubo por onde jorra água para encher a garrafinha; para beber direto e não molhar a roupa, tape o cano para a água sair por um buraquinho virado para cima.

Matar a sede é bom, no verão, jogar água pelo corpo, recarregar a cantil. bom também é ouvir o silencio entrecomido pelo som de água derramando no chão para a gente por um instante esquecer do dia e do ano.

Flores não são rosas, tulipas, hortênsias. nem mesmo domésticas margaridas. a Itália tem flores pelos cantos, flores do campo que deixaram o campo e vão nascendo distraídas pelos limites suburbanos, pelas brechas de cimento, nos cantos dos trilhos de trem e mesmo pelas ruas.

Eu vi infinitas espécies, pequenas e coloridas em tons suaves, luzindo pelo chão em grupos pequenos como moças vestidas com pano claro; elas compartilham entre si um ar simples de quem veio ao mundo para ser flor.

Transito, motonetas
O contrario de flores e bicas são carros e motonetas, particularmente destas. nas vias, vielas, avenidas, elas atacam por todos os flancos feito aquelas moscas e baratas que aparecem drogadas naquele mitológico comercial do DDD. As motinhos que lembram uma versão terrestre dos bimotores do começo do século. basta estar do lado de fora esse transito te atropelar, para os carburadores estridentes descarregarem fumaça bem dentro da sua boca.

E por que são tão neuróticos o italiano em sua motoneta? A hipótese que me ocorreu é que esse herdeiro do inigualável império que muito antes de Hollywood teve cativo ocidente e oriente, esse que depois misturou-se com o cristianismo para formar a Igreja, esse que depois ainda fez renascer as artes e o humanismo na Europa, esse italiano sente que cumpriu seu papel histórico e está cansado de fazer coisas e merece passar seu resto de eternidade a tomar vinho e fumar cigarros enquanto joga conversa fora.

Mas o insensível braço robótico da modernidade, madrasta mesquinha do mundo inventada por ingleses e americanos, tira o italiano da cama de manha a maioria dos sete dias por semana e, desprezando toda a contribuição de seus antepassados, força-o para dentro de uma repartição.
É ou não é para ficar de mal humor?

E eles ficam. se os italianos tivessem usado motonetas na Segunda Guerra, talvez o resto do mundo tivesse decidido que o problema não tão complicado que não pudessem resolver civilizadamente tomando café ou cerveja. As motonetas são como uma versão a diesel daquele coelho da Alice no pais das maravilhas. Até as meninas de rosto leve e roupa suaves abrem espaço na faixa de pedestre quando o sinal está fechado para disparar na frente dos carros.

Mas incrível mesmo é que com tanta motoneta, eu não vi um entregador de pizza...


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