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Bla bla bar... é um boteco
familiar na velha Roma. Encontrei por acaso. fica quase escondido
no andar térreo de um desses prédios baixos renascentistas.
O dono é vivo entusiasta do comunismo e decorou, melhor dito,
abarrotou o pouco espaço interno com desenhos, imagens, citações
sobre o comunismo, além de fotos de amigos e de jogadores
de futebol - o Roma havia sido campeão semanas antes e era
a liga entre as gentes gerais, sem preconceito de classe, credo
ou afiliação partidária; lembra até
um outro lugar que a gente conhece.
Não
é uma decoração para atrair turistas; mesmo
porque lá não tem nada sofisticado a venda; alias,
fecha de segunda a sábado às 7 da noite e aos domingos
nem abre. o dono é franzino, veste roupas simples, não
fala muito nem fala pouco. a primeira vez que eu cheguei, ele estava
espichado num sofazinho no fundo tirando um sono. ele depois me
disse que o Bla bla bar se chama assim porque o tema da conversa
dos frequentadores termina sempre em futebol e política e
que um e outro fatalmente viram bla bla blá.
Ser
comerciante e comunista não é contraditório;
nem colocar lado a lado o atacante do roma Batistuta (o batigol)
e Che Guevara na mesma parede. Tudo é pretexto para um continuo
blablablar, que talvez não leve a nada, não deve levar
a nada, nem precisa, ninguém quer, porque o bom mesmo é
assim, não tem preço nem ideologia. E eu pensei: como
seria o comunismo se Marx fosse italiano...
Entre
caixas de balas com plásticos coloridos e sanduíches
caseiros, entre fotos de Stalin e comentários irônicos
sobre psicanálise, o dono dá atenção
a fregueses que ele conhece pelo nome e que o conhecem pelo nome.
entre uma frase dele e outra minha, um trago de cerveja e vários
silêncios que se preenchiam com a transmissão de uma
estação de musica alternativa que comentou os incidentes
entre manifestantes e a policia em Gênova durante a reunião
do G8, depois tocou musica clássica, uma melodia suave e
triste de cello, melancolizada ainda mais pelo som preto e branco
da emissora AM.
Bicas
na Roma velha
Não é que eu queira ser romântico mas as
bicas de água de Roma são mais que objetos para matar
a cede do cidadão e dos animais que vivem na cidade. primeiro
porque a água é cristalina e na para de jorrar e a
perder-se pelo bueiro escuro de lodo e arredondado no chão.
Outra curiosidade é que essas bicas não estão
distribuídas racionalmente. você caminha pelas ruas
estreitas, calçadas de pedra da velha Roma e sem querer encontra
uma. não tem placa indicando nem está estrategicamente
posicionada a cada tantos metros de um hospital ou telefone publico.
você chega a elas porque sabe onde elas estão ou por
acaso, o que muito mais lírico, como uma carta que chega
de surpresa.
As bicas variam um pouco de forma mas sempre se parecem a hidrantes.
São de ferro e na parte de cima têm um tubo por onde
jorra água para encher a garrafinha; para beber direto e
não molhar a roupa, tape o cano para a água sair por
um buraquinho virado para cima.
Matar
a sede é bom, no verão, jogar água pelo corpo,
recarregar a cantil. bom também é ouvir o silencio
entrecomido pelo som de água derramando no chão para
a gente por um instante esquecer do dia e do ano.
Flores
não são rosas, tulipas, hortênsias. nem mesmo
domésticas margaridas. a Itália tem flores pelos cantos,
flores do campo que deixaram o campo e vão nascendo distraídas
pelos limites suburbanos, pelas brechas de cimento, nos cantos dos
trilhos de trem e mesmo pelas ruas.
Eu vi infinitas espécies, pequenas e coloridas em tons suaves,
luzindo pelo chão em grupos pequenos como moças vestidas
com pano claro; elas compartilham entre si um ar simples de quem
veio ao mundo para ser flor.
Transito,
motonetas
O contrario de flores e bicas são carros e motonetas,
particularmente destas. nas vias, vielas, avenidas, elas atacam
por todos os flancos feito aquelas moscas e baratas que aparecem
drogadas naquele mitológico comercial do DDD. As motinhos
que lembram uma versão terrestre dos bimotores do começo
do século. basta estar do lado de fora esse transito te atropelar,
para os carburadores estridentes descarregarem fumaça bem
dentro da sua boca.
E por que são tão neuróticos o italiano em
sua motoneta? A hipótese que me ocorreu é que esse
herdeiro do inigualável império que muito antes de
Hollywood teve cativo ocidente e oriente, esse que depois misturou-se
com o cristianismo para formar a Igreja, esse que depois ainda fez
renascer as artes e o humanismo na Europa, esse italiano sente que
cumpriu seu papel histórico e está cansado de fazer
coisas e merece passar seu resto de eternidade a tomar vinho e fumar
cigarros enquanto joga conversa fora.
Mas o insensível braço robótico da modernidade,
madrasta mesquinha do mundo inventada por ingleses e americanos,
tira o italiano da cama de manha a maioria dos sete dias por semana
e, desprezando toda a contribuição de seus antepassados,
força-o para dentro de uma repartição.
É ou não é para ficar de mal humor?
E
eles ficam. se os italianos tivessem usado motonetas na Segunda
Guerra, talvez o resto do mundo tivesse decidido que o problema
não tão complicado que não pudessem resolver
civilizadamente tomando café ou cerveja. As motonetas são
como uma versão a diesel daquele coelho da Alice no pais
das maravilhas. Até as meninas de rosto leve e roupa suaves
abrem espaço na faixa de pedestre quando o sinal está
fechado para disparar na frente dos carros.
Mas
incrível mesmo é que com tanta motoneta, eu não
vi um entregador de pizza...
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