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Sempre preferi a violência psicológica. Talvez
por acreditá-la reversível. Sofrer é
sentir na carne, é ter o corpo violado, é não
poder fugir à dor. Acima disso está o ato de
tirar a vida, de sacrificar aquilo que por milagre existiu
e respira.
Descobri
há um mês mais ou menos que meu apartamento tem
ratos. Em Nova York, os muitos prédios muito antigos
e os infinitos túneis de metrô dão mais
condições de sobrevivência a eles. A tendência
do americano de comer muito e jogar coisas fora os alimenta.
De noite, os ratos passeiam pelos cantos das estações
de metrô, sempre conscientes de onde podem ou não
estar. Nos trilhos, porque sabem que gente comum nunca anda
por lá, caminham à vontade entrando e saindo
de buracos; o cinza da pele deles mimetizando a cor indefinida
da penumbra, da sujeira e do pó, do concreto e do metal
nos subterrâneos da ilha de Manhattan.
Muitos
apartamentos em Nova York têm ou tiveram ratos. Parte
do charme da cidade são os prédios antigos,
agora mais que nunca caríssimos. Caixas de sapato com
um banheiro apertado custam de aluguel fortunas de assustar
até a burguesia paulistana - à alagoana ele
ainda não afetou. Muita gente aqui mora nesses lugares,
ou porque não tem dinheiro para pagar mais por algo
melhor, ou porque acha 'parte da experiência' de estar
aqui, ou pela conveniência de 'estar do lado de tudo'.
Mas como eu dizia, esses muquifos, ou 'estúdios', como
eles os chamam por aqui, custam no mínimo mil dólares
por mês. Mil dólares ou quase dois mil reais
por um buraco velho com quarto, sala e cozinha no mesmo ambiente
e um micro-banheiro. Em geral não têm elevador,
nem ar condicionado. Nenhum luxo. Só o imprescindível:
geladeira, fogão e aquecedor, que é um cano
exposto atravessando um dos cantos da sala e pelo qual passa
alguma substância quente - água, suponho - durante
o inverno.
Até
eu saber havia ratos dentro do meu apartamento, para mim os
ratos não eram exatamente inimigos. As coisas nunca
são uma nem são inteiras. Um rato para mim é
um apanhado de memórias boas e ruins de eventos que
eu presenciei ou ouvi ao longo da vida. O rato é o
bicho que comeu a isca de carne no meu jereré numa
das minhas férias de verão em Itaparica quando
eu tinha uns 12 anos e me transmitiu leptospirose. Isso no
entanto me traz boas lembranças porque doente, senti
meu pai mais próximo e porque por ordem médica,
tive uma dieta especial de doces e televisão. O rato
é também os vários hamsters que eu comprei
e que sempre morriam antes da hora, doentes ou de tristeza.
E por extensão, nessa mesma corrente de lembranças,
são os animais grandes e pequenos que eu convivi em
casa e nas férias: meus cachorros, os frágeis
e desesperados pintinhos da fazenda do meu avô, os passarinhos
belos e presos nas feiras populares da Bahia, os micos que
colocaram fogo na minha curiosidade quando visitei minha tia
Iracema na época em que ela morou em João Pessoa.
Mamíferos
têm saldo positivo na minha memória. Nunca fui
atacado por um deles nem por nenhum animal. Só por
um ganso, que não é mamífero e que no
entanto ainda leva minha tia à gargalhada sempre que
nos lembramos da história.
Depois
de tantas memórias boas, depois de quase 30 anos de
vida, pela primeira vez eu tinha em minha casa um animal de
sangue quente e que no entanto representava uma ameaça.
Aquele rato não era um predador para mim mas tinha
na sua inconsciência de rato, de bicho não-domesticado,
o poder me transmitir doença e me matar. E por isso
ele passou a ser um inimigo e eu, o dele. Eu queria matá-lo.
Acostumei-me
com a idéia de ter que ser, pela primeira vez e consciente
do ato, um carrasco. Desimportante a racionalidade que a situação
impunha; dele, rato, ser uma peste. Eu deveria encerrar o
destino de um ser que, por ele mesmo, era inofensivo para
mim pelo tamanho, que nunca me atacou diretamente, que estava
no meu apartamento como um sem-terra num latifúndio.
Dirão alguns que a comparação é
forçada e para estes eu respondo: num outro nível
que ainda é distante, uma vida é uma vida. O
mesmo sentimento que autoriza a matança de gente é
o que leva à matança de qualquer coisa.
Na semana
seguinte à descoberta, cantei insistentemente para
mim mesmo aquele verso da letra de Milton Nascimento e que
diz: 'tudo que move é sagrado'. A música vinha
no metrô, a caminho do trabalho, ou no trabalho, ou
quando eu comia ou conversava com alguém.
No final
de semana seguinte, enojado pela idéia de dormir e
comer no mesmo lugar onde dormem e comem 'escrotos do esgoto',
comprei no supermercado uma quantidade exagerada de artilharia:
16 ratoeiras e mais uma lata de veneno que não cheirava
a venero e, apesar de ser azul, minha cor preferida, vendia-se
como sendo mortal. Literalmente minei a casa, decidido a acabar
com a luta da forma mais rápida, limpa e eficiente
possível.
Agora
preciso dizer algumas palavras sobre a moderna arte de combater
pestes. Num mundo cada vez mais higiênico e preciso
não há espaço para as velhas ratoeiras
estilo guilhotina. A ratoeira moderna deixou de ser uma arma
suja e grosseira. Não se aceita mais sangue derramado
e sujeira. A última novidade do mercado é uma
cola poderosa que deixa o animal vivo, inteiro. Evita sangue.
E evita também que o animal morra e apodreça
esquecido porque uma vez preso, ele grita e informa ao predador
que é hora de concluir a operação.
Meu desejo
infantil era que os ratos abandonassem o apartamento; se dessem
conta da própria condição de peste (ou
entendessem as determinações da 'luta de classes'
natural) e buscassem um lixão onde, apesar da maior
concorrência, tivessem inimigos naturais a altura. Na
minha casa eles morreriam. A arapuca iria funcionar e apesar
de qualquer culpa ou sentimento de piedade, logo eu e o meu
inimigo nos encontraríamos frente a frente, ele pequeno
e completamente derrotado e eu, consciente e tendo que decidir
como seria a execução.
Sim,
porque a forma comum de dar o caso por encerrado, que é
jogar o rato vivo no lixo, me parecia (e parece) a mais covarde.
Eu queria (e quero) preservar uma porção da
minha honra de caçador e privar o ser do máximo
possível de sofrimento. De uma forma invertida mas
ainda verdadeira, vale nessa situação a máxima
cristã, que encontra correspondência na ética
de combate dos samurais: faça ao outro como se fosse
para si. O inimigo merece uma morte rápida. Não
é obviamente o caso quando você embrulha o derrotado
vivo e preso dentro de um saco plástico. Sim, aliviaria
um pouco a minha culpa de carrasco. Mas não atendia
ao que existe de materno em mim e que sofre com o sofrimento
do outro pelo vínculo familiar que existe entre tudo
que pulsa.
Em busca
de justificativas não racionais mas existenciais para
matar enquanto esperava o desfecho da luta, lembrei também
de um seriado antigo chamado - acho - Kung Fu, e que apesar
do nome marcial, tinha histórias cheias de singeleza
e transcendência. Num dos capítulos, o discípulo
perguntava ao mestre se deveria soltar uma mosca que se debatia
presa numa teia de aranha. E o mestre lhe deu uma resposta
sem julgamento: a aranha abra mão da liberdade em troca
da segurança. Ela é presa à teia. A mosca
sacrifica a segurança para ter liberdade.
Duas
horas da manhã. Chego em casa cansado, atordoado por
mais um dia longo de trabalho. Nova York em agosto é
quente e úmida como Manaus ou Belém. Chego nesse
estado febril, com idéias de trabalho e emoções
confusas de imigrante zunindo como insetos ao redor da minha
cabeça cansada. Tomo um banho rápido, apago
a luz e fico em silêncio esperando que o vento do ventilador
espante as moscas mentais e imitando uma brisa, me sopre para
terra dos sonhos. Mas de repente meu coração
salta. Penso ter ouvido um grito agudo, que não é
alto e nem constante, mas parece ter vindo de perto, a poucos
metros, de dentro do mesmo quarto.
Eu já
sabia o que era. Meus sensores animais me informavam que aquele
som era de um grito de dor, um S.O.S. desesperado. E que me
deixou paralisado, deitado e com o coração disparado,
suando, acordadíssimo e no escuro.
Fiquei
mais um pouco em silêncio. Mais um grito e de novo o
silêncio. Não sabia exatamente de onde ele vinha
mas estava ali e minha cabeça racional já tinha
aceitado a realidade. Tinha chegado o momento de vestir a
toga do juiz, bater o martelo e apertar o botão negro.
Fim de linha para você que se prendeu na tocaia da vida.
Pensei
em ignorar consciente o sofrimento do bicho e deixá-lo
passar a noite na ratoeira até que, pela manhã
e descansado, eu pudesse pensar melhor no 'e agora'. Mas a
consciência é um estado irreversível que
conecta coisas e os gritos eventuais me chamavam para o destino
inevitável que juntava aquele ser a mim. Era ele quem
anunciava inconsciente e desesperado a própria morte,
convidava-me a matá-lo ao mesmo tempo em que pedia
clemência. A morte, mais que em qualquer outro momento
da minha vida, estava perto, estava em mim e no rato.
Acendi
a luz e esperei um novo chamado. Veio. Vi-o embaixo do móvel
na frente da minha cama. Por causa da sombra, identifiquei
apenas um volume que se contraía e relaxava. Com um
cabo de vassoura, arrastei a ratoeira para a luz e vi a mínima
criatura. Cinza, felpuda como um bicho de pelúcia,
com olhos negros muito abertos e ofegante. Tentei pensar se
aqueles soluços de corpo inteiro que provavelmente
se intensificaram quando ele se viu perto de mim eram o pulso
do sangue ou do ar. Deviam ser os dois que, com a nova descarga
de adrenalina, faziam o rato lutar com todas as forças
para escapar. Mas não era possível: ele estava
deitado de lado, mais da metade do corpo preso à massa
espessa e grudenta.
A vida,
mais que ter carros importados ou viajar para Paris no final
de semana, é o querer acordar amanhã. E é
essa verdade gritada que me transtornava e fazia suar. Porque
quem quer morrer já está morto. O rato estava
vivo e se pudesse, se tivesse força, teria arrancado
a própria pele para desaparecer num buraco do quarto.
Perdido
em pensamentos 'fúteis' como estes, pressionado pela
rotina a ter que descansar para no dia seguinte voltar ao
escritório, zanzei pela casa buscando o instrumento
para por fim à vida do rato. Pensei no cabo de vassoura
mas a idéia de errar por pouco o golpe e ver o bicho
em dor exposta e visceral me demoveu da idéia. Lembrei
de duas ratoeiras das antigas que a dona do apartamento deixara
embaixo da pia. Armei uma delas e pus no corredor fora do
apartamento. Se fosse para sujar de sangue, que não
sujasse o meu quarto. Mas desisti do projeto que, além
de demasiadamente explícito, implicava numa arrumação
delicada. Eu teria que bater com o plástico grudento
no pino de segurança da ratoeira com força e
ter os olhos presos na cena para desviar minha mão
de um possível bote do engenho. E o rosto de salpicos
de sangue. Jogá-lo no lixo estava fora de cogitação
pelos motivos que já expliquei. A possibilidade de
decepá-lo com uma faca nem passou pela minha cabeça.
Não
sei de onde apareceu a idéia de afogá-lo. Seria
doloroso. Eu que por duas vezes senti o desespero de estar
debaixo d'água lutando por oxigênio, acabei aceitando
aquela como a solução mais rápida para
mim e para o rato. Enchi três sacos de lixo com água
da torneira e, pegando a ratoeira pela borda, joguei o bicho
para a morte.
Foi uma
fração de segundos que passou entre ele cair
e eu selar seu destino tomando cuidado metódico para
que não sobrasse ar dentro do saco. Então talvez
tenha sido uma curiosidade de menino ou uma pena me fizeram
perceber num instante como o rato contraiu o corpo na água
e seu pêlo ficou encharcado, como ele fechou os olhos.
Depois, tudo ficou em silêncio e meus braços
tremiam um pouco. Me vesti e joguei o saco na lixeira.
Passadas
duas semanas, ainda fecho os olhos e vejo a imagem do rato
no saco. Em poucos segundos ele encontraria a morte. Deixaria
seu corpo animal para conhecer o mistério que tanto
alimenta a imaginação dos homens. E eu continuaria
a esperar por ele, o mistério, sendo que ele havia
se dado na minha frente, tão próximo de mim,
e eu não tinha visto nada.
Desde
então, continuo ouvindo guinchos ocasionais. Não
fantasio que sejam fantasmas de ratos que morreram nesse apartamento
e agora vivem pelas sombras transformados enfim em completos
vultos. Dois outros ratos apareceram presos e eu os matei
da mesma forma. Mas algumas vezes não são ratos.
São breques agudos de carros na rua ou barulhos breves
e estridentes vindos de outro apartamento a me lembrar o quanto
essa experiência feriu meus ouvidos.
Esses
guinchos ocasionais me levaram a compartir essa história
com pessoas próximas. E como ratos fazem parte do dia
a dia em Nova York, algumas dessas pessoas me contaram outras
histórias com os mesmos personagens e enredos diferentes.
Um brasileiro
que mora aqui disse que uma vez apareceu em seu apartamento
um rato manhoso, sorrateiro, que não dava sopa para
ratoeiras e andava por toda a casa a comer, a sujar e a rir-se
da inteligência dos vizinhos humanos. O combate durou
uns quinze dias e terminou com o bicho finalmente preso em
uma dessas armadilhas de cola. Não contente com a vitória,
possivelmente impressionado pela violência de filmes
que banalizam a brutalidade e talvez acreditando mesmo que
a criatura era consciente daquela disputa entre homem e bicho,
o rapaz , num ritual macabro, infantil e criminoso, banhou
o rato em querosene e queimou-o vivo.
Mas os
ratos parecem merecer os homens e vice-versa. Nós e
eles gostamos de morar em ambientes parecidos, em tocas. E
temos particular atração por cidades grandes.
Apesar de nos temermos mutuamente, temos também fascinação
um pelo outro. Eles porque por um motivo ou outro escolheram
viver com a gente e não na floresta como os outros
animais não domesticados. Nós porque talvez
vendo neles o melhor (ou pior) espelho para nós mesmos,
os transformamos em personagens como Mickey Mouse e tantos
outros ratos humanizados da cultura popular atual e antiga.
Narrei
a um amigo as duas histórias de ratos, a minha e a
do outro rapaz brasileiro e ele, americano, me contou outra,
ainda mais fascinante. Esse meu amigo, que é americano
e portanto mais pragmático, estabeleceu regras para
o convívio com os roedores. Enquanto eles ficassem
pelos cantos, cuidando da vida deles, não haveria confronto.
A partir do momento em que eles se achassem no direito de
zanzar pela casa, mostrar-se em campo aberto, haveria o confronto.
Isso acabou acontecendo e ele espalhou pela casa as mesmas
ratoeiras de cola. Um dia, um rato mais curioso ou apressado
passou pela arapuca e se deu mal. Dando-me uma explicação
tão racional quanto a dos comentaristas de guerra da
CNN, meu amigo disse de decidiu não fazer nada com
o bicho. Não jogá-lo no lixo, nem afogá-lo.
Ficaria lá até morrer de fome e cansaço,
gritando que era para avisar aos outros que o território
era perigoso, que fossem embora. Confortado por essa lógica,
meu amigo conseguiu ignorar os gritos do roedor e dormiu.
Mas ao acordar, no dia seguinte, deparou-se com um desfecho
inesperado. O rato que estava preso continuava preso na ratoeira
mas seu corpo estava estraçalhado. Durante a noite,
um outro rato tinha aparecido e também grudou na cola.
Para sobreviver, rasgou e comeu o corpo do primeiro e ainda
perdeu a perna, que ficara pregada no visgo. Do segundo, não
havia outro sinal. Viveu, talvez não por muito mais
tempo, amputado que estava. Mas conseguiu arrancar da raiva
e da dor a energia mais básica da vida e morreu livre.
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