Homens e Ratos

Juliano Spyer


Matar. Para mim, ser urbano e de média classe, essa é uma ação
que se aplica apenas a insetos, precisamente a pernilongos e baratas.
E algumas aranhas, dependendo do tamanho delas e do meu estado de humor


Sempre preferi a violência psicológica. Talvez por acreditá-la reversível. Sofrer é sentir na carne, é ter o corpo violado, é não poder fugir à dor. Acima disso está o ato de tirar a vida, de sacrificar aquilo que por milagre existiu e respira.

Descobri há um mês mais ou menos que meu apartamento tem ratos. Em Nova York, os muitos prédios muito antigos e os infinitos túneis de metrô dão mais condições de sobrevivência a eles. A tendência do americano de comer muito e jogar coisas fora os alimenta. De noite, os ratos passeiam pelos cantos das estações de metrô, sempre conscientes de onde podem ou não estar. Nos trilhos, porque sabem que gente comum nunca anda por lá, caminham à vontade entrando e saindo de buracos; o cinza da pele deles mimetizando a cor indefinida da penumbra, da sujeira e do pó, do concreto e do metal nos subterrâneos da ilha de Manhattan.

Muitos apartamentos em Nova York têm ou tiveram ratos. Parte do charme da cidade são os prédios antigos, agora mais que nunca caríssimos. Caixas de sapato com um banheiro apertado custam de aluguel fortunas de assustar até a burguesia paulistana - à alagoana ele ainda não afetou. Muita gente aqui mora nesses lugares, ou porque não tem dinheiro para pagar mais por algo melhor, ou porque acha 'parte da experiência' de estar aqui, ou pela conveniência de 'estar do lado de tudo'. Mas como eu dizia, esses muquifos, ou 'estúdios', como eles os chamam por aqui, custam no mínimo mil dólares por mês. Mil dólares ou quase dois mil reais por um buraco velho com quarto, sala e cozinha no mesmo ambiente e um micro-banheiro. Em geral não têm elevador, nem ar condicionado. Nenhum luxo. Só o imprescindível: geladeira, fogão e aquecedor, que é um cano exposto atravessando um dos cantos da sala e pelo qual passa alguma substância quente - água, suponho - durante o inverno.

Até eu saber havia ratos dentro do meu apartamento, para mim os ratos não eram exatamente inimigos. As coisas nunca são uma nem são inteiras. Um rato para mim é um apanhado de memórias boas e ruins de eventos que eu presenciei ou ouvi ao longo da vida. O rato é o bicho que comeu a isca de carne no meu jereré numa das minhas férias de verão em Itaparica quando eu tinha uns 12 anos e me transmitiu leptospirose. Isso no entanto me traz boas lembranças porque doente, senti meu pai mais próximo e porque por ordem médica, tive uma dieta especial de doces e televisão. O rato é também os vários hamsters que eu comprei e que sempre morriam antes da hora, doentes ou de tristeza. E por extensão, nessa mesma corrente de lembranças, são os animais grandes e pequenos que eu convivi em casa e nas férias: meus cachorros, os frágeis e desesperados pintinhos da fazenda do meu avô, os passarinhos belos e presos nas feiras populares da Bahia, os micos que colocaram fogo na minha curiosidade quando visitei minha tia Iracema na época em que ela morou em João Pessoa.

Mamíferos têm saldo positivo na minha memória. Nunca fui atacado por um deles nem por nenhum animal. Só por um ganso, que não é mamífero e que no entanto ainda leva minha tia à gargalhada sempre que nos lembramos da história.

Depois de tantas memórias boas, depois de quase 30 anos de vida, pela primeira vez eu tinha em minha casa um animal de sangue quente e que no entanto representava uma ameaça. Aquele rato não era um predador para mim mas tinha na sua inconsciência de rato, de bicho não-domesticado, o poder me transmitir doença e me matar. E por isso ele passou a ser um inimigo e eu, o dele. Eu queria matá-lo.

Acostumei-me com a idéia de ter que ser, pela primeira vez e consciente do ato, um carrasco. Desimportante a racionalidade que a situação impunha; dele, rato, ser uma peste. Eu deveria encerrar o destino de um ser que, por ele mesmo, era inofensivo para mim pelo tamanho, que nunca me atacou diretamente, que estava no meu apartamento como um sem-terra num latifúndio. Dirão alguns que a comparação é forçada e para estes eu respondo: num outro nível que ainda é distante, uma vida é uma vida. O mesmo sentimento que autoriza a matança de gente é o que leva à matança de qualquer coisa.

Na semana seguinte à descoberta, cantei insistentemente para mim mesmo aquele verso da letra de Milton Nascimento e que diz: 'tudo que move é sagrado'. A música vinha no metrô, a caminho do trabalho, ou no trabalho, ou quando eu comia ou conversava com alguém.

No final de semana seguinte, enojado pela idéia de dormir e comer no mesmo lugar onde dormem e comem 'escrotos do esgoto', comprei no supermercado uma quantidade exagerada de artilharia: 16 ratoeiras e mais uma lata de veneno que não cheirava a venero e, apesar de ser azul, minha cor preferida, vendia-se como sendo mortal. Literalmente minei a casa, decidido a acabar com a luta da forma mais rápida, limpa e eficiente possível.

Agora preciso dizer algumas palavras sobre a moderna arte de combater pestes. Num mundo cada vez mais higiênico e preciso não há espaço para as velhas ratoeiras estilo guilhotina. A ratoeira moderna deixou de ser uma arma suja e grosseira. Não se aceita mais sangue derramado e sujeira. A última novidade do mercado é uma cola poderosa que deixa o animal vivo, inteiro. Evita sangue. E evita também que o animal morra e apodreça esquecido porque uma vez preso, ele grita e informa ao predador que é hora de concluir a operação.

Meu desejo infantil era que os ratos abandonassem o apartamento; se dessem conta da própria condição de peste (ou entendessem as determinações da 'luta de classes' natural) e buscassem um lixão onde, apesar da maior concorrência, tivessem inimigos naturais a altura. Na minha casa eles morreriam. A arapuca iria funcionar e apesar de qualquer culpa ou sentimento de piedade, logo eu e o meu inimigo nos encontraríamos frente a frente, ele pequeno e completamente derrotado e eu, consciente e tendo que decidir como seria a execução.

Sim, porque a forma comum de dar o caso por encerrado, que é jogar o rato vivo no lixo, me parecia (e parece) a mais covarde. Eu queria (e quero) preservar uma porção da minha honra de caçador e privar o ser do máximo possível de sofrimento. De uma forma invertida mas ainda verdadeira, vale nessa situação a máxima cristã, que encontra correspondência na ética de combate dos samurais: faça ao outro como se fosse para si. O inimigo merece uma morte rápida. Não é obviamente o caso quando você embrulha o derrotado vivo e preso dentro de um saco plástico. Sim, aliviaria um pouco a minha culpa de carrasco. Mas não atendia ao que existe de materno em mim e que sofre com o sofrimento do outro pelo vínculo familiar que existe entre tudo que pulsa.

Em busca de justificativas não racionais mas existenciais para matar enquanto esperava o desfecho da luta, lembrei também de um seriado antigo chamado - acho - Kung Fu, e que apesar do nome marcial, tinha histórias cheias de singeleza e transcendência. Num dos capítulos, o discípulo perguntava ao mestre se deveria soltar uma mosca que se debatia presa numa teia de aranha. E o mestre lhe deu uma resposta sem julgamento: a aranha abra mão da liberdade em troca da segurança. Ela é presa à teia. A mosca sacrifica a segurança para ter liberdade.

Duas horas da manhã. Chego em casa cansado, atordoado por mais um dia longo de trabalho. Nova York em agosto é quente e úmida como Manaus ou Belém. Chego nesse estado febril, com idéias de trabalho e emoções confusas de imigrante zunindo como insetos ao redor da minha cabeça cansada. Tomo um banho rápido, apago a luz e fico em silêncio esperando que o vento do ventilador espante as moscas mentais e imitando uma brisa, me sopre para terra dos sonhos. Mas de repente meu coração salta. Penso ter ouvido um grito agudo, que não é alto e nem constante, mas parece ter vindo de perto, a poucos metros, de dentro do mesmo quarto.

Eu já sabia o que era. Meus sensores animais me informavam que aquele som era de um grito de dor, um S.O.S. desesperado. E que me deixou paralisado, deitado e com o coração disparado, suando, acordadíssimo e no escuro.

Fiquei mais um pouco em silêncio. Mais um grito e de novo o silêncio. Não sabia exatamente de onde ele vinha mas estava ali e minha cabeça racional já tinha aceitado a realidade. Tinha chegado o momento de vestir a toga do juiz, bater o martelo e apertar o botão negro. Fim de linha para você que se prendeu na tocaia da vida.

Pensei em ignorar consciente o sofrimento do bicho e deixá-lo passar a noite na ratoeira até que, pela manhã e descansado, eu pudesse pensar melhor no 'e agora'. Mas a consciência é um estado irreversível que conecta coisas e os gritos eventuais me chamavam para o destino inevitável que juntava aquele ser a mim. Era ele quem anunciava inconsciente e desesperado a própria morte, convidava-me a matá-lo ao mesmo tempo em que pedia clemência. A morte, mais que em qualquer outro momento da minha vida, estava perto, estava em mim e no rato.

Acendi a luz e esperei um novo chamado. Veio. Vi-o embaixo do móvel na frente da minha cama. Por causa da sombra, identifiquei apenas um volume que se contraía e relaxava. Com um cabo de vassoura, arrastei a ratoeira para a luz e vi a mínima criatura. Cinza, felpuda como um bicho de pelúcia, com olhos negros muito abertos e ofegante. Tentei pensar se aqueles soluços de corpo inteiro que provavelmente se intensificaram quando ele se viu perto de mim eram o pulso do sangue ou do ar. Deviam ser os dois que, com a nova descarga de adrenalina, faziam o rato lutar com todas as forças para escapar. Mas não era possível: ele estava deitado de lado, mais da metade do corpo preso à massa espessa e grudenta.

A vida, mais que ter carros importados ou viajar para Paris no final de semana, é o querer acordar amanhã. E é essa verdade gritada que me transtornava e fazia suar. Porque quem quer morrer já está morto. O rato estava vivo e se pudesse, se tivesse força, teria arrancado a própria pele para desaparecer num buraco do quarto.

Perdido em pensamentos 'fúteis' como estes, pressionado pela rotina a ter que descansar para no dia seguinte voltar ao escritório, zanzei pela casa buscando o instrumento para por fim à vida do rato. Pensei no cabo de vassoura mas a idéia de errar por pouco o golpe e ver o bicho em dor exposta e visceral me demoveu da idéia. Lembrei de duas ratoeiras das antigas que a dona do apartamento deixara embaixo da pia. Armei uma delas e pus no corredor fora do apartamento. Se fosse para sujar de sangue, que não sujasse o meu quarto. Mas desisti do projeto que, além de demasiadamente explícito, implicava numa arrumação delicada. Eu teria que bater com o plástico grudento no pino de segurança da ratoeira com força e ter os olhos presos na cena para desviar minha mão de um possível bote do engenho. E o rosto de salpicos de sangue. Jogá-lo no lixo estava fora de cogitação pelos motivos que já expliquei. A possibilidade de decepá-lo com uma faca nem passou pela minha cabeça.

Não sei de onde apareceu a idéia de afogá-lo. Seria doloroso. Eu que por duas vezes senti o desespero de estar debaixo d'água lutando por oxigênio, acabei aceitando aquela como a solução mais rápida para mim e para o rato. Enchi três sacos de lixo com água da torneira e, pegando a ratoeira pela borda, joguei o bicho para a morte.

Foi uma fração de segundos que passou entre ele cair e eu selar seu destino tomando cuidado metódico para que não sobrasse ar dentro do saco. Então talvez tenha sido uma curiosidade de menino ou uma pena me fizeram perceber num instante como o rato contraiu o corpo na água e seu pêlo ficou encharcado, como ele fechou os olhos. Depois, tudo ficou em silêncio e meus braços tremiam um pouco. Me vesti e joguei o saco na lixeira.

Passadas duas semanas, ainda fecho os olhos e vejo a imagem do rato no saco. Em poucos segundos ele encontraria a morte. Deixaria seu corpo animal para conhecer o mistério que tanto alimenta a imaginação dos homens. E eu continuaria a esperar por ele, o mistério, sendo que ele havia se dado na minha frente, tão próximo de mim, e eu não tinha visto nada.

Desde então, continuo ouvindo guinchos ocasionais. Não fantasio que sejam fantasmas de ratos que morreram nesse apartamento e agora vivem pelas sombras transformados enfim em completos vultos. Dois outros ratos apareceram presos e eu os matei da mesma forma. Mas algumas vezes não são ratos. São breques agudos de carros na rua ou barulhos breves e estridentes vindos de outro apartamento a me lembrar o quanto essa experiência feriu meus ouvidos.

Esses guinchos ocasionais me levaram a compartir essa história com pessoas próximas. E como ratos fazem parte do dia a dia em Nova York, algumas dessas pessoas me contaram outras histórias com os mesmos personagens e enredos diferentes.

Um brasileiro que mora aqui disse que uma vez apareceu em seu apartamento um rato manhoso, sorrateiro, que não dava sopa para ratoeiras e andava por toda a casa a comer, a sujar e a rir-se da inteligência dos vizinhos humanos. O combate durou uns quinze dias e terminou com o bicho finalmente preso em uma dessas armadilhas de cola. Não contente com a vitória, possivelmente impressionado pela violência de filmes que banalizam a brutalidade e talvez acreditando mesmo que a criatura era consciente daquela disputa entre homem e bicho, o rapaz , num ritual macabro, infantil e criminoso, banhou o rato em querosene e queimou-o vivo.

Mas os ratos parecem merecer os homens e vice-versa. Nós e eles gostamos de morar em ambientes parecidos, em tocas. E temos particular atração por cidades grandes. Apesar de nos temermos mutuamente, temos também fascinação um pelo outro. Eles porque por um motivo ou outro escolheram viver com a gente e não na floresta como os outros animais não domesticados. Nós porque talvez vendo neles o melhor (ou pior) espelho para nós mesmos, os transformamos em personagens como Mickey Mouse e tantos outros ratos humanizados da cultura popular atual e antiga.

Narrei a um amigo as duas histórias de ratos, a minha e a do outro rapaz brasileiro e ele, americano, me contou outra, ainda mais fascinante. Esse meu amigo, que é americano e portanto mais pragmático, estabeleceu regras para o convívio com os roedores. Enquanto eles ficassem pelos cantos, cuidando da vida deles, não haveria confronto. A partir do momento em que eles se achassem no direito de zanzar pela casa, mostrar-se em campo aberto, haveria o confronto. Isso acabou acontecendo e ele espalhou pela casa as mesmas ratoeiras de cola. Um dia, um rato mais curioso ou apressado passou pela arapuca e se deu mal. Dando-me uma explicação tão racional quanto a dos comentaristas de guerra da CNN, meu amigo disse de decidiu não fazer nada com o bicho. Não jogá-lo no lixo, nem afogá-lo. Ficaria lá até morrer de fome e cansaço, gritando que era para avisar aos outros que o território era perigoso, que fossem embora. Confortado por essa lógica, meu amigo conseguiu ignorar os gritos do roedor e dormiu. Mas ao acordar, no dia seguinte, deparou-se com um desfecho inesperado. O rato que estava preso continuava preso na ratoeira mas seu corpo estava estraçalhado. Durante a noite, um outro rato tinha aparecido e também grudou na cola. Para sobreviver, rasgou e comeu o corpo do primeiro e ainda perdeu a perna, que ficara pregada no visgo. Do segundo, não havia outro sinal. Viveu, talvez não por muito mais tempo, amputado que estava. Mas conseguiu arrancar da raiva e da dor a energia mais básica da vida e morreu livre.


voltar