Não há nada de novo em um homem fumando na janela
Juliano Spyer

Ao Flávio, pelos cigarros filados.


Não há nada de novo em um homem fumando na janela de um prédio numa cidade cheia de prédios numa tarde tranqüila de domingo.

Não há nada de novo nem de interessante na forma como esse homem tem o olhar perdido no horizonte e na fumaça.

Não há nada de novo no prazer discreto daquele cigarro (passageiro) naquela janela (uma entre tantas) daquela cidade no sul do sul do continente americano, naquela tarde de domingo como tantas antes - antes dele mesmo, o homem na janela, ter fumado seu primeiro cigarro.

Não há nada de novo na janela, no cigarro, nem no homem. Amanhã será mais uma segunda-feira. Ele acordará cedo e estará cedo no metrô, mais um entre tantas pessoas - quem sabe você mesmo, que agora está lendo esta crônica, não tenha cruzado um dia com o homem que agora (e o que é o agora?) fuma para o ar manso do domingo?

Não importa: nem o domingo, nem o vento, nem o homem e você passando ao lado um do outro. Provavelmente você tenha desviado o olhar e ele feito o mesmo. Porque para que não invadam a minha privacidade eu concordei em apenas olhar com discrição a vida alheia. Em ser dissimulado na minha curiosidade por você, ser igualmente anônimo, perdido ou escondido na multidão, no tempo, nos sentidos da vida apesar do esforço contínuo para lembrar-se e esquecer-se dela, a vida.

E quem me garante, a mim, que passo por você anonimamente nas segundas-feiras, que você não era o homem fumando na janela no domingo à tarde? E por que eu me pergunto essas besteiras e estou tomando o seu tempo e gastando os seus preciosos olhos nestas linhas incertas que reportam a singela poesia que tem um homem que fuma para o nada e observa displicente de cima de sua janela os dois filhotes de cão brincando num quintal vizinho e escuta as vozes das duas únicas crianças que venceram as tentações eletrodomésticas para passar um na casa do outro e descerem juntos para o terraço?

Por que, meu amigo ou minha amiga, eu gasto o meu tempo e o seu tempo escrevendo estas linhas, sendo que estatisticamente as chances de você e eu nos conhecermos é ínfima?

Segundo os matemáticos e as pessoas bem informadas e bem-pensantes, existem milhares de habitantes nessa cidade imensa. Todos têm funções mesmo que cerca de 14% esteja desempregado e procurando emprego. Todos existem e comem, apesar de alguns estarem tentando emagrecer (sem conseguir) ou muitos estarem tentando engordar (também sem sucesso). E - apesar dessa complicação tamanha para fazer funcionar essa cidade tão complexa e poderosa – os moradores ficam cara a cara uns com os outros e não se dirigem palavra. Ou o que é mais curioso ou estranho ou triste ou engraçado ou estúpido ou normal ou banal - é que dentro de um ônibus cheio algumas pessoas conversem com outras pessoas que estejam a quilômetros dali. Afinal o que importa que eu viva minha vida privada em público? O que isso quer dizer? E por que você está me fazendo pensar essas coisas? E ainda pior: por que eu estou me dando ao trabalho de continuar lendo essas palavras? Por que eu quero ver onde você, autor desse texto, quer chegar? Por que você não se contenta em continuar fingindo não ver as pessoas que estão ao seu redor e que você já não pode confiar numa pessoa só porque não a conhece?

Talvez seja melhor para você parar de ler agora. Talvez essa medida precavida impeça ou ao menos reduza a frustração decorrente da sensação ao final do texto de que o autor não teria uma resposta para esse nosso problema. E se ele, apenas por sadismo ou por pura travessura estiver me encantando, me seduzindo, para eu continuar seguindo as letras que ele escolheu a dedo, datilografou, que ele revisou e editou especialmente para mim, e no final ele me deixe sozinho sentido que não valeu a pena, e eu não possa desengasgar dizendo-lhe uma indecência? Talvez seja por isso que o autor fuma seu cigarro na janela nessa tarde tranqüila de domingo.



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