Não há nada de novo em um homem fumando na
janela de um prédio numa cidade cheia de prédios
numa tarde tranqüila de domingo.
Não há nada de novo nem de interessante na
forma como esse homem tem o olhar perdido no horizonte e
na fumaça.
Não há nada de novo no prazer discreto daquele
cigarro (passageiro) naquela janela (uma entre tantas) daquela
cidade no sul do sul do continente americano, naquela tarde
de domingo como tantas antes - antes dele mesmo, o homem
na janela, ter fumado seu primeiro cigarro.
Não há nada de novo na janela, no cigarro,
nem no homem. Amanhã será mais uma segunda-feira.
Ele acordará cedo e estará cedo no metrô,
mais um entre tantas pessoas - quem sabe você mesmo,
que agora está lendo esta crônica, não
tenha cruzado um dia com o homem que agora (e o que é
o agora?) fuma para o ar manso do domingo?
Não importa: nem o domingo, nem o vento, nem o homem
e você passando ao lado um do outro. Provavelmente
você tenha desviado o olhar e ele feito o mesmo. Porque
para que não invadam a minha privacidade eu concordei
em apenas olhar com discrição a vida alheia.
Em ser dissimulado na minha curiosidade por você,
ser igualmente anônimo, perdido ou escondido na multidão,
no tempo, nos sentidos da vida apesar do esforço
contínuo para lembrar-se e esquecer-se dela, a vida.
E quem me garante, a mim, que passo por você anonimamente
nas segundas-feiras, que você não era o homem
fumando na janela no domingo à tarde? E por que eu
me pergunto essas besteiras e estou tomando o seu tempo
e gastando os seus preciosos olhos nestas linhas incertas
que reportam a singela poesia que tem um homem que fuma
para o nada e observa displicente de cima de sua janela
os dois filhotes de cão brincando num quintal vizinho
e escuta as vozes das duas únicas crianças
que venceram as tentações eletrodomésticas
para passar um na casa do outro e descerem juntos para o
terraço?
Por que, meu amigo ou minha amiga, eu gasto o meu tempo
e o seu tempo escrevendo estas linhas, sendo que estatisticamente
as chances de você e eu nos conhecermos é ínfima?
Segundo os matemáticos e as pessoas bem informadas
e bem-pensantes, existem milhares de habitantes nessa cidade
imensa. Todos têm funções mesmo que
cerca de 14% esteja desempregado e procurando emprego. Todos
existem e comem, apesar de alguns estarem tentando emagrecer
(sem conseguir) ou muitos estarem tentando engordar (também
sem sucesso). E - apesar dessa complicação
tamanha para fazer funcionar essa cidade tão complexa
e poderosa – os moradores ficam cara a cara uns com
os outros e não se dirigem palavra. Ou o que é
mais curioso ou estranho ou triste ou engraçado ou
estúpido ou normal ou banal - é que dentro
de um ônibus cheio algumas pessoas conversem com outras
pessoas que estejam a quilômetros dali. Afinal o que
importa que eu viva minha vida privada em público?
O que isso quer dizer? E por que você está
me fazendo pensar essas coisas? E ainda pior: por que eu
estou me dando ao trabalho de continuar lendo essas palavras?
Por que eu quero ver onde você, autor desse texto,
quer chegar? Por que você não se contenta em
continuar fingindo não ver as pessoas que estão
ao seu redor e que você já não pode
confiar numa pessoa só porque não a conhece?
Talvez seja melhor para você parar de ler agora. Talvez
essa medida precavida impeça ou ao menos reduza a
frustração decorrente da sensação
ao final do texto de que o autor não teria uma resposta
para esse nosso problema. E se ele, apenas por sadismo ou
por pura travessura estiver me encantando, me seduzindo,
para eu continuar seguindo as letras que ele escolheu a
dedo, datilografou, que ele revisou e editou especialmente
para mim, e no final ele me deixe sozinho sentido que não
valeu a pena, e eu não possa desengasgar dizendo-lhe
uma indecência? Talvez seja por isso que o autor fuma
seu cigarro na janela nessa tarde tranqüila de domingo.
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