O filho do capitão
Juliano Spyer


Eu e ele estávamos num Tempra preto que havia sido um carro imponente há uns 5 anos. Ele, que é com quem eu estou no automóvel, se chama Denner e trabalha para uma corretora de imóveis. Diz que ganha por volta de quatro mil por mês com a comissão na venda de uma média de dois apartamentos. Ele, que trancou a faculdade no quarto ano de Direito porque decidiu casar "depois de 10 anos de namoro" e teve que montar um apartamento.

Ele que tem um comportamento igual ao de um paulistano comum, filho ou neto de imigrantes, não particularmente culto, não realmente religioso e nem profundamente ambicioso, que na semana passada alugou o filme "Scooby Doo" para assistir com seu sobrinho e freqüenta os bares da Vila Madalena. Ele que fica feliz tendo um carro importado nem que seja usado.

Ele que torce pelo Palmeiras como torceria pelo São Paulo ou pelo Corinthians. Ele que é um ser tão anônimo quando a maioria de nós que moramos na cidade - conhecidos e relevantes apenas para os nossos amigos e parentes diretos, que talvez um dia dê uma entrevista para um telejornal na condição de passante ou testemunha. Ele que nem percebe o quanto é racista e que vem dessa classe média conservadora que tem os mesmos vícios do proletariado e da aristocracia. Ele que perdeu o pai ainda jovem. Ele que no trânsito conversa com as "minas" no carro do lado. Ele...

Ele estava me mostrando imóveis junto com seu parceiro de trabalho, um paulista chamado Alexandre. Eu perguntei ao Alexandre se ele era pernambucano. O Denner, que chama Denner com dois enes por causa da avó, que era fã de um estilista famoso que era concorrente de Clodovil, ele, o Denner, que agradece pelo aparecimento do Denner da portuguesa para não ser mais relacionado ao estilista, esse Denner, de 28 anos, que eu tinha conhecido aquele mesmo dia e por quem eu tinha sentido simpatia por não ter jeito de vendedor pilantra, esta pessoa me diz que nasceu em Uberaba. Nasceu em Uberaba, mas que só nasceu lá. Que só tinha vivido lá dois meses.

Porque o pai dele havia sido capitão da ROTA, "a primeira ROTA", a que tinha sido criada pra caçar guerrilheiro. E que era uma situação perigosa porque eles tinham que ir atrás da família dos guerrilheiros. Por isso o pai dele tinha mandado a mãe para ter o filho em Uberaba, para não correr riscos. Porque a guerrilha era assim: "eram umas pessoas com muito ideal, mas que tinha umas pessoas que se aproveitavam da condição de guerrilheiro para tirar proveito e assaltavam bancos".

Eu geralmente sou uma pessoa que não perde a fala. Eu me viro bem conversando. Poucas vezes fico sem saber o que dizer, o que responder, mas dessa vez eu estava calado, porque eu sou filho de uma família que havia sido perseguida pela Rota. Meus pais viveram na ilegalidade anos antes de eu nascer. Logo quando eu nasci, meu pai "caiu", como diziam, foi preso e eu e minha mãe tivemos que fugir para Minas. E aí está a fatia carnuda da ironia nesse meu encontro com o Denner. Eu também tinha ido para Minas ainda criança.

Também pelo mesmo contexto que levou a ele a sair e porque a família do meu pai é do interior de Minas, como a família da mãe dele também era. O pai dele e o meu pai tomaram as mesmas atitudes: mandaram as nossas mães para um lugar seguro. Os nossos pais estavam em guerra e mesmo que eu dissesse que o meu pai não participou da luta armada, não o tornaria menos prisioneiro de guerra - na tortura estavam os mesmos paus de arara para os inimigos do estado. Da mesma forma como ele e eu estávamos dando uma volta por São Paulo depois dele ter me buscado em casa, talvez o pai dele também tivesse feito isso com meu pai, só que nesse caso sem o consentimento do meu pai.

Eu fiquei em silencio porque eu estava pensando como reagir. Na verdade, a história de estar ali tranqüilamente junto com o filho de um torturador não me provocou raiva.
(Eu até pensei se queria ter raiva, se valeria a pena ter raiva, mas o moço era o filho do cocô da mosca de um dos homens que tinham algum poder para fazer com que as coisas tivessem sido diferentes. Ele não sabia de nada. Para eles, os agitadores eram jovens ingênuos ou maldosos, os mesmos índios Peris ou canibais, os mesmos negros de casa ou da senzala. Eram todos iguais, eram todos "confundidores" da ordem.)

Eu fiquei um pouco triste por lembrar daquele tempo. Poderia dar a ele uma aula de historia e me vingar arranhando a imagem do pai dele. Eu poderia até pedir para ele parar o carro e descer sem dar explicações.

Nós tínhamos um objetivo em comum. Eu queria comprar um apartamento e ele queria me vender um. Eu não sei nada de compra e venda de imóveis e ele pode me ajudar com isso. Eu não tenho o desejo de ser amigo dele e acho que fora dos nossos interesses objetivos ele também não desfrutaria da minha companhia.

Eu acho que se outra vez tivermos um estado repressivo, provavelmente eu vou estar na lista dos procurados e ele talvez tenha que me denunciar. Ele e eu não somos nada um para o outro. Melhor então ficar calado e deixar que cada um de nos siga o próprio caminho, com ou sem a venda de apartamento, como meros colegas de anonimato.


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