Evolução com defeito de fábrica

Juliano Spyer


Está provado que nunca foi tão fácil viver como no século 21. Os humanos, senhores do mundo por merecimento, inventaram e continuam inventando maneiras de satisfazer suas fantasias e delírios para assegurar a sobrevivência e o desenvolvimento da espécie.

Exemplos desse processo chamado "evolução" nos cercam: aparelhos domésticos, salas de emergência, viagens ao espaço, armas nucleares, linhas aéreas, produtos de limpeza e Internet. São tantas as vantagens que a gente está sempre se perguntando como os nossos ancestrais sobreviveram neste planeta selvagem e inimigo da inteligência e da higiene. Mas quem consegue escapar da dependência da televisão comercial e da ansiedade provocada pelo desejo de consumir e consumir e consumir, suspeita dos benefícios da civilização Ocidental.

Aparelhos domésticos: vêm progredindo para que a gente faça cada vez menos esforço e coma mais produtos pré-prontos.

Salas de emergência: atendem aos acidentados com dinheiro para pagar a conta do hospital; a saúde debilitada é resultado de refeições ricas em produtos processados industrialmente e que satisfazem mais aos olhos que ao corpo.

Viagens ao espaço: uma conquista importante para a humanidade; assim, quando esgotarem os recursos na terra, podemos expandir para outro planeta.

Armas nucleares: servem para matar milhares de pessoas de uma só vez e para garantir que o mundo se submeta ao desenvolvimento das economias democráticas.

Linhas aéreas: com elas eu posso acordar em São Paulo e dormir em Tóquio; os preços estão mais acessíveis na medida em que fica mais perigoso andar a pé.

Produtos de limpeza: servem para dar brilho, amaciar e sobretudo manter limpas as águas dos rios e dos mares.

Internet: permite que eu me encontre com outras pessoas solitárias que vivem a milhares de quilômetros de onde eu estou.

Educação e trabalho: servem para ocupar mais de 80% do nosso tempo desperto; mas tudo bem porque é um investimento que garante que eu possa comprar aparelhos domésticos, comer pré-fabricados, morrer e ser ressuscitado, financiar a conquista do espaço e as liberdades nos países desenvolvidos, fugir de São Paulo, contaminar a água do planeta e ter relações mediadas por computador...

Estranho é perceber que a felicidade, esse sentimento de satisfação consigo e de plenitude existencial, não é maior entre pessoas que têm a civilização a seu favor e que apesar disso o projeto ocidental, com seu medo da morte e sua inconformidade em face do mistério, continua ganhando adeptos.

Solução: dissolução, devolução


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