Está provado que nunca foi tão fácil viver
como no século 21. Os humanos, senhores do mundo por merecimento,
inventaram e continuam inventando maneiras de satisfazer suas
fantasias e delírios para assegurar a sobrevivência
e o desenvolvimento da espécie.
Exemplos desse processo chamado
"evolução" nos cercam: aparelhos domésticos,
salas de emergência, viagens ao espaço, armas nucleares,
linhas aéreas, produtos de limpeza e Internet. São
tantas as vantagens que a gente está sempre se perguntando
como os nossos ancestrais sobreviveram neste planeta selvagem
e inimigo da inteligência e da higiene. Mas quem consegue
escapar da dependência da televisão comercial e da
ansiedade provocada pelo desejo de consumir e consumir e consumir,
suspeita dos benefícios da civilização Ocidental.
Aparelhos domésticos:
vêm progredindo para que a gente faça cada vez menos
esforço e coma mais produtos pré-prontos.
Salas de emergência:
atendem aos acidentados com dinheiro para pagar a conta do hospital;
a saúde debilitada é resultado de refeições
ricas em produtos processados industrialmente e que satisfazem
mais aos olhos que ao corpo.
Viagens ao espaço:
uma conquista importante para a humanidade; assim, quando esgotarem
os recursos na terra, podemos expandir para outro planeta.
Armas nucleares: servem para
matar milhares de pessoas de uma só vez e para garantir
que o mundo se submeta ao desenvolvimento das economias democráticas.
Linhas aéreas: com
elas eu posso acordar em São Paulo e dormir em Tóquio;
os preços estão mais acessíveis na medida
em que fica mais perigoso andar a pé.
Produtos de limpeza: servem
para dar brilho, amaciar e sobretudo manter limpas as águas
dos rios e dos mares.
Internet: permite que eu
me encontre com outras pessoas solitárias que vivem a milhares
de quilômetros de onde eu estou.
Educação e
trabalho: servem para ocupar mais de 80% do nosso tempo desperto;
mas tudo bem porque é um investimento que garante que eu
possa comprar aparelhos domésticos, comer pré-fabricados,
morrer e ser ressuscitado, financiar a conquista do espaço
e as liberdades nos países desenvolvidos, fugir de São
Paulo, contaminar a água do planeta e ter relações
mediadas por computador...
Estranho é perceber
que a felicidade, esse sentimento de satisfação
consigo e de plenitude existencial, não é maior
entre pessoas que têm a civilização a seu
favor e que apesar disso o projeto ocidental, com seu medo da
morte e sua inconformidade em face do mistério, continua
ganhando adeptos.
Solução: dissolução,
devolução
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