Stonewall é a casa noturna que nos anos
70 se tornou marco da luta pelos direitos de gays e lésbicas
nos Estados Unidos.
De
frente para Stonewall, do outro lado da rua Christopher, tem uma
pracinha triangular, por dentro cercada de bancos e por fora, de
grades.
Numa
das laterais da praça, de pé, estão dois homens
conversando. Ao lado, sentadas, duas mulheres gesticulam.
Eles tem rostos familiares, de gente que mora
na área. Mas são esculturas brancas e já surradas,
com bordas enegrecidas de fungo e poeira.Paro na praça e,
curioso, começo a perguntar às pessoas que estão
por ali, o que elas imaginam que as esculturas estariam dizendo.
De
frente para o monumento, três mulheres com traços masculinos,
cabelos curtos, conversam entre si. Nicole, a mais nova, compra
logo a idéia. Ela é de Nova York, filha de pai mexicano
e mãe porto-riquenha. Fala de assuntos sérios mas
com animação jovem.
Os
dois homens estão sérios demais para estarem flertanto.
Tem uma atitude mais política nos rostos deles. O da direita
está dizendo:
-
cara, - e segura no ombro do outro - essa situação
não está boa e a gente tem que fazer alguma coisa
a respeito. Olha onde a gente está: bem na frente de Stonewall,
onde tudo começou...
-
É, isso mesmo. Você tem razão, responde o outro,
mais pensativo.
Já
as duas mulheres estão discutindo algo parecido, algo relacionado
ao momento que o movimento gay está atravessando. Mas eu
vejo mais frustração que determinação
na conversa delas. O gesto dos homens é mais definido. Eles
estão de pé, prontos para agir. São mais ativos
politicamente. As duas ainda estão pensando a respeito e
parecem estar mais infelizes. A da esquerda tem muito desânimo
no rosto. Parece estar exausta por não conseguir colocar
para fora o que está sentindo. Enquanto a namorada dela está
ali dando uma força, ajudando ela a atravessar essa barra...
Nicole pára um estante e percebendo o interesse das amigas
na empolgação dela, brinca:
É
ele que está me dando corda! Se me derem corda, eu vou longe!
Todos
riem. Ela continua:
Eu
adoro esse lugar pela hipocrisia que existe aqui. Foram os travestis
de cor, negros e hispanos, que apanhavam na frente de Stonewall.
Graças a 'elas', hoje os gays homens e mulheres conseguiram
muito espaço para diálogo, para serem aceitos. Apesar
disso, apesar de todas essas bandeiras com o arco-íris por
todos os lados, esse nosso espaço é muito hipócrita.
Nos outros lugares de Nova York, as pessoas ou são abertamente
capitalistas ou claramente políticas. Aqui elas são
aparentemente políticas mas, eu acho, muito acomodadas, querendo
que as coisas fiquem como estão. É por toda essa hipocrisia
que eu gosto de andar aqui. Os negros e os latinos, que puxaram
essa liberação, são invisíveis no movimento
hoje, e o Village constantemente me lembra de quanto trabalho ainda
temos pela frente.
Satisfeito,
agradeço e começo a anotar os nomes delas. Digo para
Nicole que sou brasileiro, de São Paulo. Ela diz que a namorada
dela também, que está agora em São Paulo, e
que está chegando para morarem juntas. Pergunto, curioso,
o que a Cláudia, namorada dela, faz profissionalmente.
Ela me ama...
E ri, olhando para as outras fazendo uma cara apaixonada. Insisto:
e o que a Claudia vem fazer aqui?
Vem me amar...
Mais
risos. Nicole pede a opinião das outras sobre a cena das
esculturas. Uma responde, referindo-se aos dois homens:
Minha
opinião é bem mais simples. Acho que eles não
são namorados, não são nada. Nem se conhecem.
Esse da esquerda está convidando o outro para irem juntos
para casa.
A
terceira mulher chama atenção para um detalhe.
Todos
no monumento estão de olhos fechados. Os olhos fechados talvez
representem a noite, que é quando os gays podem sair e se
curtir mais a vontade...
Agradeço ao trio e fico pensando que
poderia ter pedido o telefone ou dado o meu para Nicole. A juventude
nela transborda e se transforma em afeição, que ela
distribui sem cerimônia para todos ao redor. Mas ela já
foi...
Sentados pela praça, vários agrupamentos e alguns
solitários. Bem na entrada, à esquerda de quem está
dentro, vários homens meio mal-encarados de várias
idades. Do lado oposto, um casal de homens jovens, atléticos
e com roupas claras e coloridas, se acariciam e se beijam. Um e
outro grupo estão separados por um batalhão de pombas
famintas que devora farelos pelo chão.
Duas
garotas param na frente do monumento. Rishauna e Deborah parecem
ser estudantes universitárias heterossexuais. Não
há nada de particular nas roupas delas. As duas falam juntas,
como se compartilhassem uma opinião. Quando uma pára
a outra continua.

A
mulher da esquerda representa uma oposição ao modelo
de beleza aceito pela sociedade. Os seios dela não são
firmes mas ainda assim ela não os esconde, não usa
sutiã e a camisa dela é leve.
Pergunto
se elas vêem algum traço homossexual nas esculturas.
Se
aqui não fosse uma vizinhança gay, não acho
que as pessoas diriam que eles são gay. A única conexão
entre essas esculturas e o movimento gay está na história
dessa região de Nova York, que é predominantemente
homossexual. Mas se você não sabe a história
ou se o monumento estivesse em outro parque, seriam pessoas comuns,
jovens, conversando. Com certeza, estando aqui, esse monumento dá
um recado político. São dois homens e duas mulheres
juntos, e isso é permitido aqui. Mas não há
nada de particular nos gestos e nas expressões deles que
diga isso.
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