Duas conversas portorriquenhas

(mas podia ser em qualquer lugar...)


Juliano Spyer


Fragmentos da conversa com um taxista numa noite de sexta
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O meu vicio é mulher. É o melhor vicio.
Ele tem 59 anos, rosto redondo, olhos vivos e miúdos; calvo no "teto", o resto é raspado; fala solta, caribenha.
Eu ando sempre com "condones". Em mulher, não se pode confiar.
E em homem?, pergunto. Em homem também não! Um e outro aprontam. Não dá para confiar.

Acho que entendi ele dizer que tinha seis mulheres, ou seriam oito? Nove?
Eu saio com duas irmãs, de 17 e 18 anos. Tem outras irmãs que eu também saio, de 20, 20 e poucos.
Registro: várias duplas de irmãs adolescendo.
Elas sabem umas das outras. Eu como elas juntas, primeiro uma, depois a outra. Mulher é o melhor vício que existe e eu sou viciado em mulher.

Ele não presta demais atenção no que vai contando. Fala sem afetação sobre sexo como se o sexo fosse outra coisa do mundo, como se fosse um peixe que ele goste de pescar ou um tipo de leitão assado que ele aprecie muito.

Com a de 18, eu saio desde que ela tinha 13. Uma delícia de corpo!
Mantenho a pose a custo; só me arrisco a imaginar. Uma vendo a outra, aquela cumplicidade.

Eu chamo uma enquanto vou comendo a outra. Depois trocamos. Eu chamo uma e mostro: olha como a sua irmã gosta!

Como um homem de 59 anos vive essa vida?

Isso começou com uma lésbica de 26 anos que hoje mora em Boston mas que uma época eu comia. As lésbicas gostam de ver e ela me apresentou para umas amigas delas, e eu saia com uma e dizia para ela convidar uma amiga. Foi assim.

Está difícil escrever.

A "coisa" dessa lésbica tinha esse tamanho.
Ele mostra a ponta do dedo mindinho se referindo ao clitóris.
E fica dura, a "coisa" dela; por isso elas gostam de mulher. É que nem um pintinho. Eu também comia uma outra lésbica e a "coisa" dela era igual.

E mostra o mindinho de novo.

Uma dessas irmãs tem 19 anos. As três irmãs e uma delas eu como. Outro dia, dei pra ela cem dólares. - Tó, pra você. Mas ela ainda não quis. Logo eu levo ela também para o chão.

E você dá dinheiro para as outras?
Dou. Uma besteira. 20, 25 dólares.

Por que pecado e desejo andam juntos?
Uma outra que eu estava hoje de manhã é casada e gosta... O que ela me dá, eu como.

Mulher é isso, mulher quer "botar pra dentro". Outro dia eu voltava para casa, estava quase chegando quando uma mulher me parou. Ela disse que não sabia onde estava a irmã dela, que precisava encontrar a irmã, demos voltas pelo bairro, rodamos várias ruas e no final, o que ela queria era que alguém "botasse para dentro" dela. Deixei ela em casa e ela me disse que voltasse quando quisesse, que ela não tinha marido nem ninguém.

Um dia eu tomei umas e outras e fui. Bati na porta e quem atende?
O marido?
Exato. - A Maria está? O nome dela era Catarina mas, você sabe, eu tive que dar um jeito. O tal respondeu que Maria morava na casa de baixo. Ele era americano. Eu desci e esperei uma, duas horas. Quando a Catarina saiu, eu fui prestar contas. - Você não disse que não era casada? Ela respondeu - Ele não é marido, é um peso...

Ele concluiu:
São esses "pesos" que matam um ou outro por nada. Eu ainda sai com ela umas duas vezes mas ficou nisso. Marinalva, onde você anda esses dias?

E a sua mulher?
Eu saio com ela também. Acontece que depois que a mulher pára (de menstruar), ela não quer mais sexo. O bom é mulher nova. Gostam de tudo, fazem tudo. A que é mais velha não quer isso porque dói aqui, não quer aquilo.

Insisto na pergunta sobre a esposa.
Ela é feliz. Estamos muito bem juntos. Ela quer ir a algum lugar, vamos. Ela quer comer, eu levo. Eu gosto muito dela...


Uma outra conversa:

Eu fui casada com o "monstro" por 5 anos e namoramos outros 8. Ficamos juntos 13 anos! Quando acabou, eu não sabia mais como me relacionar com outros homens... tinha perdido a prática de flertar, parecia que eu tinha um braço a menos.
Tive curiosidade de perguntar (mas me contive) por que eles não tiveram filhos.

Eu me surpreendi com a maturidade com que eu lidei com a situação. Começou quando eu fiquei sabendo que ele estava com outra. Com uma amiga minha. O que? Eu entendi. Depois de tantos anos juntos, a gente se acomoda. E eu conversei com ele e me dispus a resolver a situação. Estava lúcida e disse para ele: se é um caso, a gente trabalha. Se virou uma relação, eu vou embora.

Porque, como eu dizia a uma amiga: a mulher culpa o homem por sair da relação mas não assume que antes de cair fora, ele perdeu o interesse por você. E se ele quiser ir embora, ele vai ir porque eu não posso fazer com que ele goste de mim.

A questão é que o "monstro" não assumia a situação. Eu dizia, OK, você tem outra pessoa, eu posso ter essa experiência se eu quiser. E ele não aceitava. Ele mentia e acreditava na própria mentira. Eu sabia de tudo!

A gente morava numa cidade com milhões de outras pessoas e por uma dessas coincidências, eu encontrei ele e a outra juntos várias, várias vezes. Encontrei eles jantando em restaurantes. E depois eu conversava com ele e ouvia dele que não, que era a minha cabeça. Até que eu pedi o divórcio - eu é que pedi - e ele fez tudo para não me dar o divórcio. Não queria se separar!

Eu tenho duas amigas muito próximas. Nós nascemos no mesmo ano, um dia depois da outra. Uma em 19 de novembro, eu no 20 e a última no 21. A primeira eu conheço desde o jardim da infância. São mais de 30 anos de amizade. Muito recentemente eu perguntei porque ela não tinha filhos se estava casada há 10 anos; ela chorou e disse que não podia, era estéril. De passagem por Porto Rico, há um tempo, ela entrou numa capelinha na cidade histórica e prometeu ficar morando aqui se Deus concedesse a graça dela ter uma criança. Imagina, mudar do México para Porto Rico por uma promessa!

A outra amiga acabou de perder um filho, o primeiro dela, dez dias antes dele nascer. Somos as três chegando numa idade crítica e sem filhos. Ter sozinha, eu não quero. Assim eu não quero. Quero ter junto com outra pessoa.

Eu acho que você seria uma mãe fenomenal.
Eu seria uma mãe bem engraçada...

Sorri e suspira. O rosto dela, com a luz da noite, fica mais terno ainda. E doce.
Mas não quero. Conheço mães solteiras, somos amigas e vejo o que é. É muito sacrificado.

Pergunto: Talvez mais para uma mulher começando a vida profissional, mas você está encaminhada. (Breve silêncio)
Não, eu não quero. (Lágrimas) E essa, agora. (Tenta rir)

Pode chorar, não tem ninguém olhando... (Um pouco mais de choro discreto.)
Quem sabe... Com quantos anos a Madonna teve o dela?
Uns 30 e tantos.
Acho que foi 38!
(Outra vez, sorriso e lágrimas)
Vamos ver como passa 2002.

Fico triste por ela. Caminhamos até o portão do prédio dela, nos abraçamos e eu vou embora agradecido por trombar às vezes com corações grávidos de vida... e amor.


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