A divina humanidade do Cristo
Juliano Spyer


Onde falo sobre o que sobra da história do Cristo se tiramos os milagres sobrenaturais.
Para Patrus Ananias, que não perdeu o humor nem a doçura.


Outro dia eu participava de um bate-papo com uma celebridade na Internet e me chamou a atenção a curiosidade de um dos fãs que queria saber se o convidado "acreditava em Jesus Cristo".

Para nós, latino-americanos, essa pergunta quase que só tem uma resposta. É sim. Um sim por um lado cada vez mais reticente e por outro, mais obcecado - depende de que lado da cruz você esteja. Poucas pessoas - ainda assim meio culpadas - reconhecem publicamente que não crêem no maior mártir do Ocidente.

Afinal foi catolicismo, tanto ou mais que as armas, que conquistou a América. Por isso somos o continente mais católico do planeta. Até quem não simpatiza com a Igreja e nunca foi obrigado a ir aos cultos, se sente pouco a vontade ao 'infringir' regras de tratamento como, por exemplo, não usar maiúsculas para escrever 'filho de deus'.

Eu não sei quanto a vocês, mas detalhes como esse agem no irracional e me incomodam. Eu tenho medo de estar cometendo um pecado e por via das dúvidas acabo escrevendo 'como se deve'. Uma pessoa que se benze na frente de igrejas e cemitérios me faz pecador por tabela e mesmo que eu não me sinta assim 5 minutos depois, durante esses 5 minutos eu penso que é mais fácil não ir para o inferno quando a sua família impõe desde cedo o hábito de ir à missa.

Mas não é só a culpa que incomoda quando me perguntam se eu 'acredito no Cristo'. Também fico frustrado, constrangido por não ter oxigênio para dizer mais sobre um tema que é verdadeiramente incrível. Eu sinto mal-estar só de ouvir a palavra 'Jesus' porque à exceção de um curso na faculdade sobre a bíblia, todas as vezes que o tema apareceu numa conversa, era para eu ouvir a mesma coisa: que sem eles, o pai-filho-espirito-santo, eu vou para o inferno.

Perto da minha casa, em cima da entrada do metrô, tem um out-door com um padre - acho que numa pose disciplinadora, de braços cruzados - e um texto assim: "sofrendo por ter abortado, venha para a Igreja" ou alguma coisa ainda pior. Como se o aborto fosse fácil para a mulher, não fosse uma cirurgia e não fatalmente machucasse o instinto materno.

O ABC do cristianismo para os convertidos é o mesmo; católicos e protestantes concordam mais que discordam entre si e usam o mesmo 'livro didático' para o culto. O cristão praticante de hoje me dá em geral uma impressão ruim: de ser um tarado reprimido, ou de precisar da aceitação de um grupo, ou de depender de rédeas morais para conter as próprias obsessões, ou ainda de ser tão desmotivado que quer garantir-se na próxima vida - porque essa não está valendo a pena.

Os que são cristãos por imposição familiar, participam do culto formalmente e estão ali como em outras situações públicas: obedecem uma forma de conduta, um vocabulário, uma dança para não chamar a atenção dos outros e poder ignorar secretamente o que acontece do lado de fora. e ainda tem um último grupo, o único que se sobressalta entre os canalhas, que é a dos defensores de causas sociais que usam o poder simbólico e a força institucional da igreja para confrontar o estado e chegar ao indivíduo - coisas que os militantes políticos tradicionais ou cientistas têm mais dificuldade de fazer.

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Para responder se eu acredito no Cristo, eu preciso antes esclarecer quais são as duas outras soluções lógicas para essa dúvida escondidos no sentido óbvio.

A primeira se refere à historicidade do Cristo. Não sem a mesma culpa descrita a cima eu questiono: ele como indivíduo existiu, foi homem, esteve na terra, ou é um mito composto pela imaginação de gerações? Há quem duvide que Shakespeare, o maior dramaturgo da Inglaterra, era uma pessoa; existem estudiosos que afirmam que as peças atribuídas a ele poderiam ter sido escritas por pessoas diferentes; e veja que Shakespeare nasceu mais de quinze séculos depois do filho de José e Maria. Outro exemplo para sustentar essa dúvida é, para citar um caso brasileiro, Zumbi dos Palmares, que teria morrido em combate mas que renasceu muitas vezes - era visto, inclusive - enquanto lenda para encarnar o desejo de liberdade do escravos negros.

Da mesma forma as histórias de pregadores messiânicos que viveram pelo Oriente Próximo poderiam ter sido 'digeridas' pela papa cultural povo daquela época - papa esta que misturava Oriente e Ocidente, Roma e Pérsia, junto com África e árabes - para sintetizar (ou sincretizar) esse personagem tão contraditório, que uma hora roda a baiana com os ambulantes na porta do templo, outra caminha sobre as águas e em outra ainda enfrenta o preconceito da multidão para defender uma prostituta.

Outra possibilidade de resposta, a mais comum, é que a questão se refira à natureza divina do Cristo, que ele não apenas existiu como humano como era uma versão primitiva do Superman, com poderes ilimitados para fazer o bem e combater até a morte o arquinimigo de seu pai, o cruel Lúcifer, anjo caído que traiu a confiança de deus ambicionando tomar o poder através de uma rebelião - rebelião esta não estranhamente comparada no curso do tempo a todas as revoltas contra o poder instituído e mais recentemente às que deram a luz aos estados comunistas contemporâneos; lembram-se da história de que comunistas comiam criancinhas?

Anedotas à parte, os que acreditam nessa versão acreditam entre outras coisas que: 1) Maria concebeu e pariu seu filho sem perder a virgindade; 2) que o Cristo marcou um encontro no meio de um rio e chegou no local andando e sem se molhar; 3) que sem estar bêbado ele atendeu a um pedido de sua mãe para transformar água em vinho; 4) que ele para provar que era o profeta teria curado cegos, aleijados e ressuscitado um amigo; 5) que ele teria dado de comer a uma multidão com só um pedaço de pão e outro de peixe.

As igrejas estão muito caducas para impôr aos homens e mulheres do século 21, que aprendem física, química e história na escola, a ver o mundo pelas mesmas lentes de gente de um mundo pré-científico, onde os pressupostos morais eram passados de geração em geração na forma de histórias fantásticas, de dragões e elfos e sereias e tantos outros seres mitológicos de corpo humano ou parcialmente humano e com poderes empresados do mundo natural como o fogo, o trovão, a chuva. E as igrejas, que se auto-conferiram o poder de decidir quem entrará no suposto paraíso, usam esse poder para chantagear levando as pessoas a dizer que sim, que esses absurdos aconteceram como diz a bíblia.

Eu fico indignado com o silêncio coletivo que protege a bíblica e ao mesmo tempo classifica de primitivos outros que usam o mito para interagir com o mundo. Ao mesmos eles não têm a visão racional para contradizer-se o que no nosso caso nos torna hipócritas no melhor dos casos.

Agora é o momento de superar a hipocrisia.

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Sobrou uma possibilidade de resposta à pergunta sobre a crença no Cristo e que se refere não à existência dele ou à natureza divina dele, mas à mensagem e o exemplo creditados a ele e que sobrevivem momentos muito diferentes das civilizações no Ocidente.

Essa alternativa me tranqüiliza porque mostra que esse aspecto foi e continua sendo maior que às organizações que tentam institucionalizá-los. São mensagens que resumem uma proposta de humanidade que não existia antes e que passa a diferencia o ser humano de depois. Apesar do meu conhecimento de história Antiga ser limitado, eu tenho a impressão que até o Cristo tirar a vida era um ato sem importância e amplamente aceito socialmente como hoje é aceito caçar borboletas.

A escravidão não era questionada assim como não se questionava que um escravo, apesar de ter as mesmas características físicas de um soldado ou de um sacerdote, ele vinha sem alma. É essa conceito libertário e humanista que passa a existir nas pessoas influenciadas pelo Cristo. Até então a liberdade dependia do estado que regulava o poder de cada casta. Depois, o indivíduo pôde ter consciência de si para reconhecer que a liberdade a liberdade não é um atributo da civilização e portanto não pode ser regida pelo estado. É o espírito que, quando tem consciência de si, é livre independentemente do corpo, que é apenas um instrumento para chegar à libertação. Torna esta proposta ainda mais revolucionária o fato de a sua realização pressupor a a resistência e a luta pacíficas, sem violência.

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E o que foi que o Cristo disse e que sobreviveu na bíblia católica inclusive quando os católicos inquisidores sangravam e matavam - muitas vezes queimando - pessoas não se aceitavam a estrutura de poder do Vaticano? O que estava escrito no livro importante do mundo ocidental quando os católicos apoiaram o genocídio aos judeus pelo partido Nazista alemão na primeira metade do século? Que mensagem estava codificada de uma forma tão óbvia a ponto de sobreviver dentro de uma estrutura apodrecida como a do catolicismo mesmo sendo esta mensagem a perfeita condenação dos atos dessa instituição?

- Atire a primeira pedra quem nunca pecou...

Ele, por exemplo, teria desafiado uma multidão usando o corpo dele para proteger uma puta qualquer que estava para ser apedrejada na rua. Se fosse o Superman era fácil porque o corpo de aço não sofre com pedras e o dele era de carne. E por ser filho do criador, ele podia ter usado um milagre fazendo chover pimenta malagueta apenas no rosto da turba arruaceira ou provocado um eclipse do sol e projetado numa tela estática aquele filme em que a Sharon Stone cruza as pernas sem calcinha ou convocado as cobras do deserto a vomitar no chão azeite de oliva sob os pés dos malvados enquanto ele levava Maria Madalena para um lugar protegido. Missão cumprida!

Mas apesar de supostamente dispor dessas vantagens, ele usou a palavra - não a espada, não o fogo, não a pólvora - para dar consciência à multidão de que o pecado era o mesmo da prostituta e de todo mundo, de sermos de carne e imperfeitos, em aperfeiçoamento, e que perdoar ao outro - e não condená-lo - é o que deixa que a gente também se perdoe e continue vivendo. Nesse sentido dá para dizer que ele fez cegos enxergarem, enxergarem por dentro, como poderia dizer que ele fez os tristes darem risada, os retardados pensar, ou qualquer imagem que represente um ganho de consciência.

- Amai ao outro como a si mesmo...

É uma frase tão simples que parece uma equação matemática. Se o outro que não sou eu é o meu inimigo então a condição para eu sobreviver é que este outro morra e o mesmo vale para ele. Se sempre que eu tiver o poder para submeter o outro à minha vontade eu usar esse poder, a minha vida se resumirá a mim e eu sozinho não existo porque não tenho nada para me espelhar. Amar ao outro como a si é o princípio da não-violência e que, ao contrário do que parece, exige mais coragem do que o enfrentamento. Matar ao outro é o mesmo que se matar; condenar ao outro é se condenar; ignorar é ser ignorado e se ignorar. É incrível que há dois mil anos essa frase existe e continua desafiando a compreensão do Ocidente tão orgulhoso de seu cleaning e suas tecnologias.

São mensagens como essas que me convencem da divindade do Cristo, uma divindade fundamentada no amor; amor que é a combinação do espírito divino com o instinto animal e que existe em criaturas mais desenvolvidas como chimpanzés e golfinhos mas que se manifesta com mais clareza nos seres humanos. Amar que é ao mesmo tempo o sentimento mais essencial e mais sofisticado; que é o começo e o fim do movimento que cria a vida.

O 'feitiço' do Cristo foi ter mostrado como compartilhar o pão, dando o exemplo para a multidão de seguidores abrir as suas bolsas e fazerem o mesmo, dando a impressão de que o pão se multiplicava quando o que se multiplicava era a boa vontade. Isso é o que em sentido figurado pode-se chamar de uma mudança da água para o vinho.

Eu odeio a ladainha cristã de que o Cristo morreu para (som de violino em funeral) perdoar os pecados dos homens. Essa forma de explicar a mensagem implica numa dívida que me escraviza à igreja nasceu comigo e não pode ser paga de outra forma a não ser com a minha vida - e que sentido tem deixar de viver em agradecimento a quem morreu por mim?

Quanto a morrer pelos homens (e pelas mulheres também), o sensacional desse sacrifício é a demonstração de coragem. Ele continuou a pregar apesar da perspectiva de ser preso e morto, dando um exemplo de resistência pacífica à opressão que não defendia uma igreja ou um estado, mas apenas o ser humano, independente da raça, do credo, da cor, da preferência sexual, da religião, da nacionalidade, do conhecimento. O Cristo viveu como pobre, entre os pobres e morreu como pobre ao lado de ladrões comuns. E para reforçar o recado, ainda deu a outra face.

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Esse legado, que vem sendo resgatado por líderes libertários como Gandhi e Martin Luther King, apareceram para o Ocidente com o Cristo. Como as igrejas incorporaram essa mensagem à bíblia, o sentido da palavra 'cristão' e seus derivados se prendeu a valores uniformizados, moralizados, que asfixiam a o conteúdo da mensagem.

Uma possível solução para o tema é arrumar um sufixo mais moderninho para o radical "Cristo". E eu acho bacana, por exemplo, as palavras 'cristianismo' e 'cristianista', correspondendo àquela proposta ou àquelas pessoas que tem interesse nas idéias do Cristo independente do misticismo capenga das igrejas - admito também gostar desses termos porque eles soam um pouco como 'marxismo' e 'marxista'.

Nessa perspectiva, rompa você também com os preconceitos dê uma chance a esse cara que nunca escreveu uma palavra e ainda assim, só com a palavra e a atitude, desafia a tecnologia do satélite e da internet.