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Outro dia eu participava de um bate-papo com uma celebridade na
Internet e me chamou a atenção a curiosidade de um
dos fãs que queria saber se o convidado "acreditava
em Jesus Cristo".
Para
nós, latino-americanos, essa pergunta quase que só
tem uma resposta. É sim. Um sim por um lado cada vez mais
reticente e por outro, mais obcecado - depende de que lado da cruz
você esteja. Poucas pessoas - ainda assim meio culpadas -
reconhecem publicamente que não crêem no maior mártir
do Ocidente.
Afinal
foi catolicismo, tanto ou mais que as armas, que conquistou a América.
Por isso somos o continente mais católico do planeta. Até
quem não simpatiza com a Igreja e nunca foi obrigado a ir
aos cultos, se sente pouco a vontade ao 'infringir' regras de tratamento
como, por exemplo, não usar maiúsculas para escrever
'filho de deus'.
Eu
não sei quanto a vocês, mas detalhes como esse agem
no irracional e me incomodam. Eu tenho medo de estar cometendo um
pecado e por via das dúvidas acabo escrevendo 'como se deve'.
Uma pessoa que se benze na frente de igrejas e cemitérios
me faz pecador por tabela e mesmo que eu não me sinta assim
5 minutos depois, durante esses 5 minutos eu penso que é
mais fácil não ir para o inferno quando a sua família
impõe desde cedo o hábito de ir à missa.
Mas
não é só a culpa que incomoda quando me perguntam
se eu 'acredito no Cristo'. Também fico frustrado, constrangido
por não ter oxigênio para dizer mais sobre um tema
que é verdadeiramente incrível. Eu sinto mal-estar
só de ouvir a palavra 'Jesus' porque à exceção
de um curso na faculdade sobre a bíblia, todas as vezes que
o tema apareceu numa conversa, era para eu ouvir a mesma coisa:
que sem eles, o pai-filho-espirito-santo, eu vou para o inferno.
Perto
da minha casa, em cima da entrada do metrô, tem um out-door
com um padre - acho que numa pose disciplinadora, de braços
cruzados - e um texto assim: "sofrendo por ter abortado, venha
para a Igreja" ou alguma coisa ainda pior. Como se o aborto
fosse fácil para a mulher, não fosse uma cirurgia
e não fatalmente machucasse o instinto materno.
O
ABC do cristianismo para os convertidos é o mesmo; católicos
e protestantes concordam mais que discordam entre si e usam o mesmo
'livro didático' para o culto. O cristão praticante
de hoje me dá em geral uma impressão ruim: de ser
um tarado reprimido, ou de precisar da aceitação de
um grupo, ou de depender de rédeas morais para conter as
próprias obsessões, ou ainda de ser tão desmotivado
que quer garantir-se na próxima vida - porque essa não
está valendo a pena.
Os
que são cristãos por imposição familiar,
participam do culto formalmente e estão ali como em outras
situações públicas: obedecem uma forma de conduta,
um vocabulário, uma dança para não chamar a
atenção dos outros e poder ignorar secretamente o
que acontece do lado de fora. e ainda tem um último grupo,
o único que se sobressalta entre os canalhas, que é
a dos defensores de causas sociais que usam o poder simbólico
e a força institucional da igreja para confrontar o estado
e chegar ao indivíduo - coisas que os militantes políticos
tradicionais ou cientistas têm mais dificuldade de fazer.
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Para
responder se eu acredito no Cristo, eu preciso antes esclarecer
quais são as duas outras soluções lógicas
para essa dúvida escondidos no sentido óbvio.
A
primeira se refere à historicidade do Cristo. Não
sem a mesma culpa descrita a cima eu questiono: ele como indivíduo
existiu, foi homem, esteve na terra, ou é um mito composto
pela imaginação de gerações? Há
quem duvide que Shakespeare, o maior dramaturgo da Inglaterra, era
uma pessoa; existem estudiosos que afirmam que as peças atribuídas
a ele poderiam ter sido escritas por pessoas diferentes; e veja
que Shakespeare nasceu mais de quinze séculos depois do filho
de José e Maria. Outro exemplo para sustentar essa dúvida
é, para citar um caso brasileiro, Zumbi dos Palmares, que
teria morrido em combate mas que renasceu muitas vezes - era visto,
inclusive - enquanto lenda para encarnar o desejo de liberdade do
escravos negros.
Da
mesma forma as histórias de pregadores messiânicos
que viveram pelo Oriente Próximo poderiam ter sido 'digeridas'
pela papa cultural povo daquela época - papa esta que misturava
Oriente e Ocidente, Roma e Pérsia, junto com África
e árabes - para sintetizar (ou sincretizar) esse personagem
tão contraditório, que uma hora roda a baiana com
os ambulantes na porta do templo, outra caminha sobre as águas
e em outra ainda enfrenta o preconceito da multidão para
defender uma prostituta.
Outra
possibilidade de resposta, a mais comum, é que a questão
se refira à natureza divina do Cristo, que ele não
apenas existiu como humano como era uma versão primitiva
do Superman, com poderes ilimitados para fazer o bem e combater
até a morte o arquinimigo de seu pai, o cruel Lúcifer,
anjo caído que traiu a confiança de deus ambicionando
tomar o poder através de uma rebelião - rebelião
esta não estranhamente comparada no curso do tempo a todas
as revoltas contra o poder instituído e mais recentemente
às que deram a luz aos estados comunistas contemporâneos;
lembram-se da história de que comunistas comiam criancinhas?
Anedotas
à parte, os que acreditam nessa versão acreditam entre
outras coisas que: 1) Maria concebeu e pariu seu filho sem perder
a virgindade; 2) que o Cristo marcou um encontro no meio de um rio
e chegou no local andando e sem se molhar; 3) que sem estar bêbado
ele atendeu a um pedido de sua mãe para transformar água
em vinho; 4) que ele para provar que era o profeta teria curado
cegos, aleijados e ressuscitado um amigo; 5) que ele teria dado
de comer a uma multidão com só um pedaço de
pão e outro de peixe.
As
igrejas estão muito caducas para impôr aos homens e
mulheres do século 21, que aprendem física, química
e história na escola, a ver o mundo pelas mesmas lentes de
gente de um mundo pré-científico, onde os pressupostos
morais eram passados de geração em geração
na forma de histórias fantásticas, de dragões
e elfos e sereias e tantos outros seres mitológicos de corpo
humano ou parcialmente humano e com poderes empresados do mundo
natural como o fogo, o trovão, a chuva. E as igrejas, que
se auto-conferiram o poder de decidir quem entrará no suposto
paraíso, usam esse poder para chantagear levando as pessoas
a dizer que sim, que esses absurdos aconteceram como diz a bíblia.
Eu
fico indignado com o silêncio coletivo que protege a bíblica
e ao mesmo tempo classifica de primitivos outros que usam o mito
para interagir com o mundo. Ao mesmos eles não têm
a visão racional para contradizer-se o que no nosso caso
nos torna hipócritas no melhor dos casos.
Agora
é o momento de superar a hipocrisia.
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Sobrou
uma possibilidade de resposta à pergunta sobre a crença
no Cristo e que se refere não à existência dele
ou à natureza divina dele, mas à mensagem e o exemplo
creditados a ele e que sobrevivem momentos muito diferentes das
civilizações no Ocidente.
Essa
alternativa me tranqüiliza porque mostra que esse aspecto foi
e continua sendo maior que às organizações
que tentam institucionalizá-los. São mensagens que
resumem uma proposta de humanidade que não existia antes
e que passa a diferencia o ser humano de depois. Apesar do meu conhecimento
de história Antiga ser limitado, eu tenho a impressão
que até o Cristo tirar a vida era um ato sem importância
e amplamente aceito socialmente como hoje é aceito caçar
borboletas.
A
escravidão não era questionada assim como não
se questionava que um escravo, apesar de ter as mesmas características
físicas de um soldado ou de um sacerdote, ele vinha sem alma.
É essa conceito libertário e humanista que passa a
existir nas pessoas influenciadas pelo Cristo. Até então
a liberdade dependia do estado que regulava o poder de cada casta.
Depois, o indivíduo pôde ter consciência de si
para reconhecer que a liberdade a liberdade não é
um atributo da civilização e portanto não pode
ser regida pelo estado. É o espírito que, quando tem
consciência de si, é livre independentemente do corpo,
que é apenas um instrumento para chegar à libertação.
Torna esta proposta ainda mais revolucionária o fato de a
sua realização pressupor a a resistência e a
luta pacíficas, sem violência.
***
E
o que foi que o Cristo disse e que sobreviveu na bíblia católica
inclusive quando os católicos inquisidores sangravam e matavam
- muitas vezes queimando - pessoas não se aceitavam a estrutura
de poder do Vaticano? O que estava escrito no livro importante do
mundo ocidental quando os católicos apoiaram o genocídio
aos judeus pelo partido Nazista alemão na primeira metade
do século? Que mensagem estava codificada de uma forma tão
óbvia a ponto de sobreviver dentro de uma estrutura apodrecida
como a do catolicismo mesmo sendo esta mensagem a perfeita condenação
dos atos dessa instituição?
- Atire a primeira pedra quem nunca pecou...
Ele,
por exemplo, teria desafiado uma multidão usando o corpo
dele para proteger uma puta qualquer que estava para ser apedrejada
na rua. Se fosse o Superman era fácil porque o corpo de aço
não sofre com pedras e o dele era de carne. E por ser filho
do criador, ele podia ter usado um milagre fazendo chover pimenta
malagueta apenas no rosto da turba arruaceira ou provocado um eclipse
do sol e projetado numa tela estática aquele filme em que
a Sharon Stone cruza as pernas sem calcinha ou convocado as cobras
do deserto a vomitar no chão azeite de oliva sob os pés
dos malvados enquanto ele levava Maria Madalena para um lugar protegido.
Missão cumprida!
Mas
apesar de supostamente dispor dessas vantagens, ele usou a palavra
- não a espada, não o fogo, não a pólvora
- para dar consciência à multidão de que o pecado
era o mesmo da prostituta e de todo mundo, de sermos de carne e
imperfeitos, em aperfeiçoamento, e que perdoar ao outro -
e não condená-lo - é o que deixa que a gente
também se perdoe e continue vivendo. Nesse sentido dá
para dizer que ele fez cegos enxergarem, enxergarem por dentro,
como poderia dizer que ele fez os tristes darem risada, os retardados
pensar, ou qualquer imagem que represente um ganho de consciência.
-
Amai ao outro como a si mesmo...
É
uma frase tão simples que parece uma equação
matemática. Se o outro que não sou eu é o meu
inimigo então a condição para eu sobreviver
é que este outro morra e o mesmo vale para ele. Se sempre
que eu tiver o poder para submeter o outro à minha vontade
eu usar esse poder, a minha vida se resumirá a mim e eu sozinho
não existo porque não tenho nada para me espelhar.
Amar ao outro como a si é o princípio da não-violência
e que, ao contrário do que parece, exige mais coragem do
que o enfrentamento. Matar ao outro é o mesmo que se matar;
condenar ao outro é se condenar; ignorar é ser ignorado
e se ignorar. É incrível que há dois mil anos
essa frase existe e continua desafiando a compreensão do
Ocidente tão orgulhoso de seu cleaning e suas tecnologias.
São
mensagens como essas que me convencem da divindade do Cristo, uma
divindade fundamentada no amor; amor que é a combinação
do espírito divino com o instinto animal e que existe em
criaturas mais desenvolvidas como chimpanzés e golfinhos
mas que se manifesta com mais clareza nos seres humanos. Amar que
é ao mesmo tempo o sentimento mais essencial e mais sofisticado;
que é o começo e o fim do movimento que cria a vida.
O
'feitiço' do Cristo foi ter mostrado como compartilhar o
pão, dando o exemplo para a multidão de seguidores
abrir as suas bolsas e fazerem o mesmo, dando a impressão
de que o pão se multiplicava quando o que se multiplicava
era a boa vontade. Isso é o que em sentido figurado pode-se
chamar de uma mudança da água para o vinho.
Eu
odeio a ladainha cristã de que o Cristo morreu para (som
de violino em funeral) perdoar os pecados dos homens. Essa forma
de explicar a mensagem implica numa dívida que me escraviza
à igreja nasceu comigo e não pode ser paga de outra
forma a não ser com a minha vida - e que sentido tem deixar
de viver em agradecimento a quem morreu por mim?
Quanto
a morrer pelos homens (e pelas mulheres também), o sensacional
desse sacrifício é a demonstração de
coragem. Ele continuou a pregar apesar da perspectiva de ser preso
e morto, dando um exemplo de resistência pacífica à
opressão que não defendia uma igreja ou um estado,
mas apenas o ser humano, independente da raça, do credo,
da cor, da preferência sexual, da religião, da nacionalidade,
do conhecimento. O Cristo viveu como pobre, entre os pobres e morreu
como pobre ao lado de ladrões comuns. E para reforçar
o recado, ainda deu a outra face.
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Esse legado, que vem sendo resgatado por líderes libertários
como Gandhi e Martin Luther King, apareceram para o Ocidente com
o Cristo. Como as igrejas incorporaram essa mensagem à bíblia,
o sentido da palavra 'cristão' e seus derivados se prendeu
a valores uniformizados, moralizados, que asfixiam a o conteúdo
da mensagem.
Uma possível solução para o tema é arrumar
um sufixo mais moderninho para o radical "Cristo". E eu
acho bacana, por exemplo, as palavras 'cristianismo' e 'cristianista',
correspondendo àquela proposta ou àquelas pessoas
que tem interesse nas idéias do Cristo independente do misticismo
capenga das igrejas - admito também gostar desses termos
porque eles soam um pouco como 'marxismo' e 'marxista'.
Nessa
perspectiva, rompa você também com os preconceitos
dê uma chance a esse cara que nunca escreveu uma palavra e
ainda assim, só com a palavra e a atitude, desafia a tecnologia
do satélite e da internet.
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