É dezembro e estou recebendo cartões
digitais de boas festas. Mais um ano que eu continuo igual: sem mandar
cartões de boas festas. Não comprei nem presente para
a minha mãe! Certas coisas, nem os cartões de crédito
corrigem...
Tenho amigos que mandam mensagens engraçadas,
outros que desejam paz e alegria. Eu peço que nos encontremos
logo.
Outro natal, outro ano novo. Leio Pedro Nava e recomendo
a quem não o conhece, que se dê de presente um livro
dele. É soltar o coração como uma pipa no domingo
azul.
Esse ano completou 5 invernos que eu me exilei.
Saí do país pela falta de perspectiva
de solução para a guerra entre pretos pobres e tiras
podres. Também fui embora para me livrar do mau habito do
apadrinhamento. Cinco anos me lavando no rio da memória e
tendo conversas de botequim via satélite. Cinco anos comprando
CDs brasileiros e pagando em dólar. Valeu a pena?
Lula é presidente, Roberto Marinho, o imperador.
Cidade de deus no cinema, campeonato mundial de futebol. Nada está
diferente e nada continua igual. Mas - eu descobri - sair de casa
é abandonar o corpo, é sapato sem sola. Existir em
módulo de tradução automática enche
o saco!
Peguei um ônibus no Tietê e desci em
Times Square. A poluição de informação,
de luzes e letras, lembra uma favela suspensa, em concreto e metal.
no parque central, eu me perdi e não me encontrei. Fazia
frio e ouvia um baião triste, sertanejo. As cores dos museus
nos museus, nas pessoas e nos metrôs. Tudo passando como uma
locomotiva a jato. E num bar, os poetas do mundo inteiro se reuniam
às sextas-feiras e eu sentia saudades por não pertencer
ali. (eu vinha de Miami, onde quase todas as coisas eram coisa nenhuma,
e o mar, uma paisagem manchada num quadro no elevador de um consultório
odontológico suburbano. Na rua sem carros, o sinal de transito
alternava verdes, laranjas e vermelhos. E não era um código...)
A marginal Pinheiros termina na cidade do México.
Lá, crianças nos faróis com cinza nos olhos
anunciam que vão morrer caminhando sobre cacos de vidro em
troca de moedas desvalorizadas. de madrugada, no labirinto centro-histórico,
madames com echarpes vermelhas, taxistas insones e estudantes de
cinema fazem voar sacos de supermercado com o ar quente dos exaustores.
A vila madalena tinha alguma coisa de havana. Lá, hoje, homens
e mulheres precisam de diploma universitário e devem falar
línguas para dirigir um táxi do estado. E muitos pretos
têm esse emprego... Me apaixonei por uma prostituta (preta)
que militou 10 anos no partido vermelho (que lhe partiu o coração).
No festival do novo cinema latino-americano, vi em um filme brasileiro
(ruim), imagens dos pretos de antes: o litoral da América,
espelho da África.
O Ibira um dia foi o parque Palermo. E um dia eu
volto à Argentina para que o meu amigo poeta me leve para
passear pelas ruas do centro que eu vi menino, e para que o meu
amigo sem-tempo tenha tempo para andarmos de bicicleta pelo centro
de Buenos Aires, esquentando o frio e soltando fumacinha pela boca.
E para não terminar, fecho o círculo
com o nome das pessoas que inspiraram este mensagem, os parceiros
no crime, ancestrais e novos, de lá, de cá e de sempre:
edu, julieta, desmond, rebecca, ju-a, flavión, nikki, bill,
dani, tatiana, inaê, fabí, lucas, andrea paula, tetê,
guto, mafon, hilda, francesco, monica, marie, kaká, ciça,
andrea, luigi, tollof, ariane, tica, melqui, omar, santi, pisano,
valéria, el-poeta, marcia, cintia, renata, xará, mariana,
tia márcia, minha mãe, liliam, joão pedro,
patricia, lu, fabiano&claudinha, clau, não respectivamente
e sem ordem.
voltar
|