Ontem encontrei
na rua uma pessoa que eu não via há anos. Os nossos
pais são amigos e se encontravam nos fins de semana para conversar.
Nós, as crianças, reinávamos pela casa, pelos
telhados, quintais, pela rua. Curiosamente o que essa pessoa se lembrou
desses encontros foi de um dia que eu convenci a ele e ao irmão
que existia enterrado nos fundos da casa dele um anelzinho de ouro.
Pois é - ele me escreveu depois por
email - o tesouro, apesar de cavoucado, no suor, nunca foi achado...
É uma pena, porque se a gente tivesse achado algo naquela
época, pelo menos um anelzinho de ouro igual ao seu (lembro
muito bem quando você disse: "gente, é só
cavar que vocês acham. Tá vendo esse anel aqui? Pois
é, eu o achei desse jeito..."), eu estaria mais feliz
hoje, pois pagaria parte das minhas dívidas.
Então respondi para ele num exercício
de remedar os estilo do Rubem Braga:
Quem sabe essa história do anelzinho não
tenha sido afinal o anelzinho que a gente encontrou, anos depois,
ontem, por acaso? Quem sabe essa lembrança das nossas brincadeiras
na infância não estivessem perdidas se não fosse
por esse anelzinho enterrado na memória?
E se o anelzinho tivesse sido encontrado antes e
não hoje? Será que a gente teria dado valor a ele
segundo o valor do dinheiro, dos salários, das contas pagas
nas filas de banco?
Eu acredito que o anelzinho tenha sobrevivido justamente
porque naquela época ele não significava dinheiro.
Pelo menos não esse dinheiro morto que a gente passa de bolso
em bolso sem olhar na cara de quem recebe.
E se ao encontrá-lo naquela época a
brincadeira acabasse: o anelzinho não teria sido deixado
de lado e se perdido, e junto com ele aquelas tardes no quintal
da sua casa?
Minha aposta é que esse anelzinho era de ouro
e existia e continua dentro da gente. Era de ouro porque só
as coisas preciosas resistem enterradas tantos anos sem perder o
brilho.
Acreditando nele a gente faz ele existir. e tudo
mais que existiu junto com ele. Aquela mão de criança
na terra, aqueles domingos na rua, aquela crença de que era
possível existir um anelzinho de ouro enterrado no quintal.
Hoje infelizmente se alguém me disser que
existe um anel debaixo da terra, vou pensar que é trote,
vou desconfiar das intenções do interlocutor. Afinal,
se fosse verdade, ele não me contaria, guardaria só
para ele.
Mas apesar de ser um adulto hoje e conhecer
a malícia da vida e saber que existem pela frente muitas
horas no escritório e mais tantas no carro preso no trânsito.
Apesar da dor crônica que eu carrego nas costas - anuncio
da decadência do corpo. e apesar das muitas pessoas que eu
conheço só de passagem, sem saber se têm família
ou foram criadas em orfanatos. Apesar disso tudo, um anelzinho que
nunca existiu me traz de volta esse tempo sem compromisso que a
gente podia se dar ao luxo de procurar aneizinhos na terra.
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