A entrega total
Juliano Spyer

"A terra era nossa antes de sermos da terra.
Ela era nossa terra mais de cem anos
Antes de sermos o seu povo.
Ela era nossa Em Massachusetts, em Virgínia,
Mas nós éramos da Inglaterra, ainda colonos,
Possuindo o que ainda nos possuía,
Possuídos pelo que já não mais possuíamos.
Alguma coisa que preservávamos nos enfraquecia
Até percebermos que éramos nós mesmos
Que nos preservávamos da nossa terra de viver
E finalmente encontramos redenção na rendição.
Como éramos, nos entregamos totalmente
(o talento da ação foi muitas ações de guerra)
À terra vagamente conhecida para Oeste
Mas ainda crua, sem história, sem arte
Como ela era, como ela se tornou."

(Robert Frost, "The gift outright", 1942).


É comum eu ouvir de pessoas, amigos ou não, comentários de simplistas, desinformados a deslavadamente preconceituosos e ignorantes sobre os Estados Unidos. Esse sentimento anti-americano - com uma dose maior ou menor de inveja pelo "outro gigante" da América que deu certo - apareceu no final dos anos 40, depois do fim da segunda guerra, quando os Estados Unidos (espelhado pela União Soviética) ocupou o vácuo político deixado pela Europa do ocidente.

O que hoje se vê desse país-potência mundial, é o entulho de lixo cultural, pragmatismo insensível a outros povos, e um jeito de ser corporativo que alimenta e é alimentado pela religião do consumismo. Isso é a superfície. Mas é uma pena que nós, brasileiros, cedamos às fórmulas fáceis de responder às nossas inquietações de identidade nacional e banalizemos a experiência de construção da república estadunidense; experiência humana, cheia de sangue e erros, mas que antes de tornar-se (talvez prematuramente) potência mundial, conseguiu se constituir como identidade autônoma e livre.

Estou escrevendo isso porque ontem eu esbarrei num poema de Robert Frost chamado "The Gift Outright". A miséria e a violência em que vivem milhares de brasileiros pede uma transformação radical e de emergência, uma revolução, e o poema de Frost sobre a conquista e a construção da soberania e da independência do país dele pode mostrar um caminho, uma direção a seguir.

Quando a gente fala das forças dominantes, do capitalismo, do imperialismo, das oligarquias, como se fossem coisas fora da gente, externas à nossa vida, coisas desidentificadas com a gente e vice-versa, estamos declarando, até cinicamente, felizes, que as coisas devem continuar como estão.

As forças dominantes, o capitalismo e as oligarquias estão na gente e nos enfraquecem. Viver um trabalho "normal", como se o Brasil fosse um país (soberano e independente), e se contentar com votar no candidato de esquerda não vai matar a fome e acabar com a escravidão no Brasil. Continuar pagando (e sendo cúmplice da exploração do trabalho de) domésticas e trabalhadores sem educação formal é uma hipocrisia de quem se diz de esquerda.

O Brasil precisa de ajuda, agora, e tudo que cada um tiver para dar é pouco. Precisamos urgentemente nos desintoxicar dos hábitos de Primeiro Mundo (ao qual não pertencemos mesmo fingindo pertencer), da bolha burguesa, e vestir o Brasil, assumi-lo, merecê-lo. Como fizeram os nossos invejados vizinhos do norte.

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